Apostila · Estatística, volume III de IV

Regressão:
o que o
coeficiente não diz

Por baixo do nome intimidante está uma operação simples: agrupar casos parecidos e comparar médias, de forma contínua e com várias variáveis ao mesmo tempo. A dificuldade não está em ajustar o modelo — o programa faz isso com dados sem relação nenhuma e não avisa. Está em saber o que o número que sai autoriza a dizer.

12 capítulosdo coeficiente ao relatório honesto
1 demo ao vivode um modelo desfeito em cinco correções
12 exercíciospara fazer nos modelos que já tem

↓ role para começar

Capítulo 01 Fundamento

O que uma regressão faz, afinal

Por baixo do nome intimidante está uma operação simples: dividir os dados em grupos e comparar médias — só que de forma contínua e com várias variáveis ao mesmo tempo.

1.1 A ideia, sem álgebra

Quer saber como o preço de uma casa varia com a área. Uma abordagem manual: agrupar as casas por faixas de área e calcular o preço médio de cada faixa.

ÁreaPreço médio
50–70 m²145 000 €
70–90 m²182 000 €
90–110 m²221 000 €
110–130 m²256 000 €

Isto já é uma análise: cerca de +1 850 € por m², em média, nesta amostra. A regressão faz o mesmo sem escolher faixas — traça a linha que melhor descreve como a média de y muda ao longo de x.

A definição operacional

Uma regressão estima a média de y para cada valor de x. Não descreve casas individuais: descreve o centro da distribuição de preços em cada área. É por isso que o resíduo — a distância de cada casa à linha — não é um defeito, é a informação sobre quanto os preços variam além da área.

1.2 O que se ganha com várias variáveis

Com mais do que uma variável, o que a regressão faz passa a ser condicionar: comparar casas com a mesma área entre si, e ver como o preço varia com a localização; comparar casas na mesma localização, e ver como varia com a área.

Voltando à versão manual: seria fazer uma tabela cruzada de área × localização e comparar dentro de cada célula. A regressão faz isso de forma contínua e sem ficar sem dados em cada célula — que é o problema que a versão manual tem assim que há três ou quatro variáveis.

Aviso que atravessa o volume inteiro

Condicionar não é intervir. A regressão diz como o preço médio difere entre casas que têm áreas diferentes. Não diz o que aconteceria se acrescentasse 20 m² a uma casa concreta — isso é uma pergunta causal, e é o assunto do volume IV.

Toda a confusão sobre regressão vive nesta distância. Este volume ensina a usar a ferramenta corretamente; o próximo ensina quando o resultado pode ser lido como causa.

1.3 Onde este volume se situa

Delimitação e ordem

Volume III de quatro. O I tratou de descrever honestamente; o II do salto da amostra para o mundo; este trata de relações entre variáveis; o IV, de causalidade.

Não é uma apostila de machine learning: para modelos preditivos, algoritmos e a prática de treino, veja Machine Learning & IA e Análise de Dados. Aqui o foco é compreender e reportar uma relação — e saber quando o número que sai não quer dizer o que parece.

1.4 O que a linha é

A recta ajustada é escolhida por um critério concreto: minimizar a soma dos quadrados dos resíduos. Quadrados, não distâncias simples — o que tem uma consequência prática importante:

Exercício 1.1 — Faça a versão manual primeiro

Antes da próxima regressão, agrupe x em cinco faixas e calcule a média de y em cada uma. Se a regressão der algo muito diferente do que essa tabela sugere, há não-linearidade ou pontos influentes — e descobriu-o em dois minutos.

Capítulo 02 Fundamento

Prever ou explicar: dois ofícios, o mesmo maquinismo

A mesma ferramenta serve dois objetivos incompatíveis, e quase todas as más práticas vêm de aplicar as regras de um ao outro.

2.1 A distinção

PreverExplicar
A perguntaQue valor terá y no próximo caso?Como é que y se relaciona com x?
InteressaO acerto do resultadoOs coeficientes e a sua incerteza
VariáveisTodas as que ajudarem, mesmo sem sentidoSó as que a teoria justifica
Correlacionadas entre siSem problemaProblema sério — os coeficientes ficam instáveis
Avalia-se comErro em dados que o modelo não viuCoeficientes, intervalos, diagnóstico
ComplexidadeQuanta ajudarA menor que sirva
Um exemplo que separa as duas

Para prever se um cliente vai cancelar, o número de chamadas ao apoio é uma variável excelente — melhora o acerto.

Para explicar porque cancelam, essa mesma variável é péssima: não é uma causa, é um sintoma do mesmo descontentamento que causa o cancelamento. Pô-la no modelo absorve o efeito das causas reais, e faz com que tudo o resto pareça não importar.

A mesma variável, o mesmo modelo, o mesmo software: útil num objetivo, ativamente enganadora no outro.

2.2 Os erros que a confusão produz

2.3 E há um terceiro objetivo, que se esquece

Descrever

Às vezes não se quer prever nem explicar: quer-se resumir um padrão. "Nesta amostra, cada m² adicional associa-se a mais 1 850 € no preço médio" é uma descrição legítima, útil, e que não afirma causalidade nenhuma.

É o uso mais honesto e o menos praticado, porque a linguagem trai: as pessoas escrevem "o efeito de X" quando queriam dizer "a associação com X", e a partir daí toda a gente lê causa. A palavra efeito é a fronteira entre este volume e o seguinte — vale a pena reservá-la.

Exercício 2.1 — Declare o objetivo

Antes do próximo modelo, escreva numa linha: prever, explicar ou descrever. Depois verifique se as suas escolhas de variáveis e de avaliação correspondem. É frequente descobrir que se está a fazer as três coisas mal ao mesmo tempo.

Capítulo 03 Núcleo

Ler um coeficiente sem dizer mais do que ele diz

Um coeficiente é um número com unidades, uma incerteza e uma condição. Deixar cair qualquer uma das três é onde a interpretação se estraga.

3.1 As três partes

A frase completa

Coeficiente de 1 850 para a área significa: «nesta amostra, casas que diferem em 1 m² diferem, em média, 1 850 € no preço, entre casas com os mesmos valores das outras variáveis do modelo».

Três elementos que costumam desaparecer: 1) em média — não em cada casa; 2) que diferem — não "se aumentar"; 3) entre casas com os mesmos valores das outras variáveis do modelo — e não do mundo.

3.2 "Mantendo o resto constante" — o que esconde

A expressão sugere uma experiência controlada, e não é isso que aconteceu. O que aconteceu foi uma comparação dentro dos dados que existem. Três consequências:

3.3 Unidades, e o coeficiente que parece pequeno

SituaçãoO que fazer
Coeficiente de 0,000023 para "rendimento em euros"Reescalar: por cada 10 000 € de rendimento, +0,23. O número não mudou; a legibilidade sim
Comparar importâncias entre variáveis com escalas diferentesPadronizar (por desvio-padrão) — mas dizer que o fez, porque muda a leitura
Intercepto sem sentido ("preço de uma casa com 0 m²")Centrar as variáveis; o intercepto passa a ser o valor no caso médio
A comparação de importâncias é traiçoeira

"Qual é a variável mais importante?" quase nunca tem resposta limpa. Coeficientes padronizados dependem da variabilidade naquela amostra: uma variável importante que quase não varia nos seus dados terá coeficiente padronizado pequeno — não porque não importe, mas porque não teve oportunidade de mostrar.

3.4 O intervalo é parte do coeficiente

Tudo o que o volume II disse aplica-se a cada coeficiente: é uma estimativa com erro-padrão, e reportá-lo sem intervalo é reportar metade. Um coeficiente de 1 850 com intervalo [1 700; 2 000] e outro de 1 850 com intervalo [−400; +4 100] são conclusões completamente diferentes, e aparecem iguais na tabela se só se olhar para a primeira coluna.

3.5 Uma tabela de tradução

Não escrevaEscreva
"A área aumenta o preço em 1 850 €.""Casas que diferem 1 m² diferem, em média, 1 850 € [1 700; 2 000], no mesmo bairro e com o mesmo número de quartos."
"O efeito da formação é +12%.""Quem fez a formação teve, em média, +12% — sem controlar quem escolhe fazer formação."
"X é o fator mais importante.""X tem o maior coeficiente padronizado nesta amostra."
"O modelo explica 68% do preço.""68% da variação dos preços desta amostra é acompanhada pelas variáveis do modelo." (cap. 8)
Exercício 3.1 — Escreva a frase completa

Pegue no último coeficiente que reportou e escreva a frase com as três partes: em média, que diferem, condicionado a quê. Se a frase ficar absurda ao ser lida em voz alta, é sinal de que a interpretação anterior era generosa.

Capítulo 04 Núcleo

A recta não é a relação

O modelo assume que a relação é uma linha. O mundo não costuma concordar — e a regressão não avisa: devolve uma linha na mesma.

4.1 O que a linearidade impõe

Ajustar uma recta é afirmar que o efeito de mais uma unidade de x é sempre o mesmo, quer se esteja em baixo ou em cima da escala. É uma afirmação forte e frequentemente falsa:

A verificação obrigatória

Desenhe y contra x antes de ajustar. É o conselho do volume I aplicado a duas variáveis, e continua a ser o passo mais saltado. Uma nuvem de pontos com uma curva evidente não precisa de teste nenhum para se saber que a recta está errada.

4.2 Transformações, e o que cada uma significa

FormaLê-se comoQuando
y ~ x+1 em x → +β em y (unidades absolutas)Relação aditiva
log(y) ~ x+1 em x → cerca de β×100 % em yy cresce em proporção; efeitos multiplicativos
y ~ log(x)x duplicar → +0,69×β em yRendimentos decrescentes
log(y) ~ log(x)+1 % em x → +β % em y (elasticidade)Preços, procura, escalas
y ~ x + x²Curva com um máximo ou mínimoRelações que se invertem
Os logaritmos não são um truque estatístico

São a forma de dizer que o que importa é a variação proporcional, não a absoluta — e para preços, rendimentos, tempos e receitas isso é quase sempre verdade. É a mesma ideia da log-normal no volume I, cap. 4: quantidades que resultam de multiplicações pedem escala logarítmica.

Duas notas práticas: log de zero não existe (e somar 1 é uma escolha com consequências, não um detalhe técnico), e a média dos logaritmos não é o logaritmo da média — ao voltar às unidades originais é preciso cuidado.

4.3 Extrapolar: onde o modelo deixa de saber

Um modelo ajustado a casas entre 50 e 130 m² não sabe nada sobre uma casa de 400 m². A fórmula devolve um número — e o número é uma fantasia matemática, porque assume que a relação continua igual numa zona onde não há dados.

É a origem de previsões absurdas, do tipo "ao ritmo atual, em 2040 haverá mais telemóveis do que átomos". A tendência era real no intervalo observado; a extrapolação não é.

Regra simples

Reporte sempre o intervalo de x em que o modelo foi ajustado, e trate qualquer valor fora dele como não coberto. Custa uma frase e previne a maior parte dos usos indevidos do seu trabalho por terceiros.

4.4 O quarteto que devia estar em todas as salas

O mesmo modelo, quatro realidades

É possível construir quatro conjuntos de dados que produzem exatamente a mesma recta, o mesmo R² e os mesmos erros-padrão, e que são:

  • Uma relação linear com ruído — o caso em que o modelo está certo.
  • Uma curva perfeita — o modelo está errado e nada na tabela o diz.
  • Uma relação linear perfeita com um ponto fora — a linha está torcida por uma observação.
  • Todos os pontos com o mesmo x, exceto um — a inclinação inteira é determinada por um único ponto.

Nos quatro casos, a saída numérica é idêntica. Nos quatro casos, a nuvem de pontos revela imediatamente qual é qual.

A conclusão

Nenhuma tabela de resultados distingue estes quatro casos. É a mesma lição do volume I aplicada a modelos: os números de resumo não identificam os dados. O gráfico não é uma ilustração do resultado — é parte da verificação.

Exercício 4.1 — Duas versões

Ajuste o seu modelo com y e com log(y), e desenhe os dois. Veja qual dos dois tem resíduos mais bem-comportados (cap. 7). Se for o segundo, a relação era multiplicativa e a versão linear estava a distorcer tudo.

Capítulo 05 Núcleo

O que muda quando se acrescenta uma variável

Acrescentar uma variável a um modelo pode reduzir um coeficiente, aumentá-lo, ou inverter-lhe o sinal. Saber qual dos três é o assunto mais consequente deste volume.

5.1 As três coisas que podem acontecer

O coeficiente de x…Provável explicação
Quase não mudaA nova variável é praticamente independente de x
EncolheParte do que se atribuía a x era, na verdade, da nova variável
Inverte o sinalSimpson em versão contínua — a associação bruta ia no sentido contrário da condicional
Fica igual mas com intervalo enormeAs duas variáveis são muito parecidas entre si (5.3)
A pergunta que a estatística não responde

Perante um coeficiente que muda de sinal ao acrescentar uma variável: qual dos dois números está certo?

Não há resposta nos dados. Depende de o que é aquela variável: se for algo que influencia tanto x como y — um confundidor — o modelo com ela é melhor. Se for algo que está no caminho entre x e y, incluí-la apaga o efeito que se queria medir. E há um terceiro caso, o colisor, em que incluí-la cria uma associação que não existia.

Distinguir os três é exatamente o conteúdo do volume IV. Por agora, o essencial: acrescentar variáveis não é sempre melhor, e "controlar por tudo o que temos" não é uma estratégia defensável.

5.2 Um exemplo que se sente

Caso · O desconto que baixava a receita

Uma análise de encomendas encontra: quanto maior o desconto, menor a receita por encomenda. Conclusão aparente: os descontos destroem receita, acabar com eles.

Acrescentando o segmento de cliente ao modelo, o sinal inverte-se: dentro de cada segmento, mais desconto associa-se a mais receita. O que acontecia é que os descontos maiores eram dados sobretudo a clientes pequenos — que compram menos de qualquer forma.

Duas afirmações verdadeiras e opostas, e a decisão de negócio é oposta em cada uma. A escolha entre elas não se faz com dados: faz-se sabendo porque os descontos são atribuídos como são.

5.3 Variáveis muito parecidas entre si

Quando duas variáveis do modelo são fortemente correlacionadas — área e número de quartos, por exemplo —, o modelo tem dificuldade em separar o que é de cada uma. O efeito:

O que fazer: escolher uma das duas conforme a teoria, combiná-las numa só (área por quarto), ou aceitar a imprecisão e reportá-la. O que não fazer é escolher a que dá o resultado mais bonito.

5.4 Selecionar variáveis automaticamente

Porque os procedimentos automáticos estragam a interpretação

Métodos que acrescentam e removem variáveis conforme melhoram o ajuste produzem modelos cujos coeficientes e valores-p não têm o significado habitual: as variáveis que sobrevivem foram escolhidas por parecerem boas nesta amostra, o que é o jardim de caminhos que se bifurcam do volume II, cap. 8 em forma de algoritmo.

Para prever, há métodos melhores e a validação honesta resolve (cap. 10). Para explicar, a seleção de variáveis deve vir da teoria sobre o problema, não do computador.

Exercício 5.1 — Acrescente uma de cada vez

Construa o seu modelo variável a variável, registando o coeficiente de interesse a cada passo. A trajetória desse número diz mais sobre o problema do que o modelo final — e mostra qual das variáveis está a fazer o trabalho pesado.

Capítulo 06 Prática

Categorias e interações

Duas extensões que cobrem a maior parte das perguntas reais — e que introduzem armadilhas de leitura próprias.

6.1 Variáveis categóricas e a categoria de referência

Para incluir "bairro" num modelo, cria-se um indicador por bairro menos um: o que fica de fora é a referência, e todos os outros coeficientes são diferenças em relação a ele.

A consequência prática

Os coeficientes não têm significado absoluto: são comparações com a referência. Mudar a referência muda todos os números sem mudar o modelo — as previsões são idênticas, e a tabela parece completamente diferente.

Por isso: diga sempre qual é a referência, e escolha-a com intenção. A escolha habitual do software é a primeira por ordem alfabética, que é raramente a mais interpretável. Uma categoria grande e neutra costuma ser melhor.

6.2 Interação: quando o efeito depende de outra coisa

Um modelo aditivo afirma que o efeito de x é o mesmo para toda a gente. Uma interação permite que dependa de outra variável — e é frequentemente a pergunta que interessa mesmo:

A armadilha de leitura

Com uma interação no modelo, o coeficiente principal de x deixa de ser "o efeito de x": passa a ser o efeito de x quando a outra variável vale zero. Se essa outra variável for a idade, é o efeito à idade zero — um número sem sentido, frequentemente com sinal invertido, e regularmente citado em relatórios como se fosse o efeito geral.

A correção é simples e quase sempre esquecida: centre as variáveis antes de as interagir. O coeficiente principal passa a ser o efeito no caso médio, que é interpretável.

6.3 Reportar interações

Coeficientes de interação são difíceis de ler em tabela e fáceis de ler em gráfico. A prática recomendada: não reporte o coeficiente — desenhe o efeito estimado de x para dois ou três valores da outra variável, com as respetivas bandas de incerteza. Uma figura substitui um parágrafo que ninguém entende.

E uma advertência sobre poder

Detetar uma interação exige bastante mais dados do que detetar um efeito principal — como regra grosseira, várias vezes mais. Consequência: procurar interações num estudo pequeno é uma forma muito eficaz de gerar falsos positivos (volume II, caps. 7 e 8).

É exatamente o que acontece quando um teste A/B "não funcionou no geral, mas funcionou nos utilizadores móveis novos": isso é uma interação, encontrada por procura, num estudo que já não tinha poder para o efeito principal.

Exercício 6.1 — Centre e compare

Ajuste um modelo com interação, primeiro sem centrar e depois centrando as variáveis. Compare os coeficientes principais. As previsões são iguais; a leitura da tabela é irreconhecível — e é a segunda versão que se deve reportar.

Capítulo 07 Prática

Os resíduos falam

O que sobra depois de o modelo explicar o que consegue é a melhor fonte de informação sobre o que está errado com ele.

7.1 Um gráfico que devia ser obrigatório

Resíduos contra valores previstos. Se o modelo estiver bem, essa nuvem deve ser uma faixa sem forma, centrada em zero e com largura constante. Qualquer padrão é uma mensagem:

O que vêO que significaO que fazer
Uma curva (U ou U invertido)A relação não é linearTransformar, ou acrescentar um termo quadrático (cap. 4)
Um cone que abreA variabilidade cresce com o valor previstoMuito comum em dinheiro e contagens: log, ou erros robustos
Bandas ou riscasA variável de resposta é discreta ou truncadaTalvez o modelo linear não seja o adequado (cap. 11)
Um ou dois pontos muito longeObservações influentesInvestigar individualmente (7.3)
Padrão ao longo do tempoObservações não independentesModelo de séries temporais, ou agrupar (cap. 11)
O cone que abre é o mais frequente

Em dados de negócio, quase todas as quantidades têm variabilidade proporcional ao nível: os erros nas casas de 500 000 € são maiores em euros do que nas de 100 000 €. Isso não enviesa os coeficientes — mas torna os erros-padrão errados, e portanto os intervalos e os valores-p. É a razão prática mais comum para trabalhar em escala logarítmica.

7.2 O que os pressupostos são e não são

PressupostoSe falharGravidade
Relação linear (na forma especificada)Os coeficientes descrevem algo que não existeCrítica
Observações independentesErros-padrão demasiado pequenos; falsa precisãoCrítica e frequentemente ignorada
Variância constanteIntervalos errados; coeficientes ainda válidosMédia — há correções fáceis
Resíduos normaisPouco, com amostras grandesBaixa — é o mais testado e o menos importante
A inversão de prioridades habitual

Cursos e listas de verificação dedicam muita atenção à normalidade dos resíduos — que quase não importa com dados suficientes — e pouca à independência, que é o pressuposto mais violado e o mais consequente.

Se cada cliente aparece em cinquenta linhas, o modelo pensa que tem cinquenta vezes mais informação do que tem. Os coeficientes ficam razoáveis; os intervalos ficam absurdamente estreitos, e tudo parece significativo (volume II, cap. 3).

7.3 Pontos influentes: o ponto que decide o resultado

Como a linha minimiza quadrados (cap. 1), uma observação distante pode determinar sozinha a inclinação. Convém distinguir dois casos:

O teste de dois minutos

Ajuste o modelo com e sem o ponto e compare os coeficientes. Se mudarem muito, a sua conclusão depende de uma observação — o que é uma informação essencial e que deve constar do relatório, independentemente do que decidir fazer com o ponto.

E aplica-se aqui a classificação do volume I, cap. 6: erro, outra população, ou cauda genuína. Só a primeira se remove sem mais.

Exercício 7.1 — Os quatro gráficos

Para o último modelo que ajustou, desenhe: resíduos contra previstos, resíduos contra cada variável, resíduos ao longo do tempo, e a influência de cada ponto. Leva cinco minutos e é raro não encontrar nada.

Capítulo 08 Crítica

R², e o que ele não diz

É a medida mais citada e a mais mal usada. Não mede se o modelo está certo, e um valor alto é tantas vezes um mau sinal como um bom.

8.1 O que é

O R² é a fração da variação de y que é acompanhada pelas variáveis do modelo, nesta amostra. R² = 0,68 significa que 68% da variação dos preços varia em conjunto com as variáveis incluídas; os restantes 32% variam por outras razões.

8.2 As cinco coisas que não significa

Não significaPorquê
Que o modelo está corretoUm modelo com a forma errada pode ter R² alto — o quarteto do cap. 4 mostra-o
Que as variáveis causam yR² não sabe nada sobre causalidade
Que o modelo prevê bemÉ calculado nos dados de treino; o que interessa é o erro em dados novos (cap. 10)
Que 0,9 é melhor que 0,4Depende do domínio: 0,4 é excelente para comportamento humano e péssimo para uma medição física
Que acrescentar variáveis melhorou o modeloO R² nunca desce ao acrescentar variáveis, mesmo que sejam ruído puro
A última linha é a mais importante

Acrescente vinte colunas de números aleatórios a um modelo e o R² sobe. Sempre. É uma propriedade matemática, não um sinal de melhoria — e é por isso que usar R² para escolher entre modelos com números diferentes de variáveis é simplesmente inválido.

Existem correções (R² ajustado, critérios de informação) que penalizam a complexidade. São melhores e continuam a ser calculadas nos dados de treino. Para prever, a única avaliação que conta é em dados que o modelo não viu (cap. 10).

8.3 Um R² alto pode ser um mau sinal

Três causas de R² suspeito

  • Fuga de informação. Uma variável do modelo contém, indiretamente, a resposta: prever a receita anual incluindo a receita do último trimestre. R² = 0,97, e o modelo não serve para nada.
  • Tautologia. As duas variáveis partilham um componente por construção — prever "vendas totais" a partir de "vendas por loja × número de lojas".
  • Sobreajuste. Muitas variáveis, poucos casos: o modelo decorou a amostra (cap. 10).

Regra prática: perante um R² inesperadamente alto, a primeira hipótese não é que descobriu algo — é que há fuga. Procure-a antes de festejar.

8.4 O que reportar em vez disso

Exercício 8.1 — Vinte colunas de ruído

Acrescente ao seu modelo vinte variáveis geradas aleatoriamente e observe o R² subir. Faça-o uma vez: é a demonstração mais rápida de porque este número não deve ser usado para escolher modelos.

Capítulo 09 Método aplicado · Demo

Uma regressão lida mal, e depois bem

Role devagar. Um modelo que «prova» que o apoio ao cliente prejudica a retenção — e as seis correções que o desfazem.

Camada 0 — a saída

"Cada chamada ao apoio reduz a retenção em 6 pontos"

O coeficiente é negativo, o valor-p é minúsculo, o R² é respeitável. Tudo na saída do programa parece corroborar a conclusão — e a recomendação que dela sai, reduzir o contacto com o apoio, é ativamente prejudicial.

As cinco correções seguintes são todas verificações deste volume, aplicadas por ordem. Nenhuma exige dados novos.

Correção 1 — a forma

A relação satura, e a recta não sabe

A nuvem de pontos (cap. 4) mostra uma curva que desce depressa entre zero e duas chamadas e depois estabiliza. A recta ajustada faz a média das duas zonas e não descreve corretamente nenhuma delas.

É a diferença entre "cada chamada custa 6 pontos" — falso e alarmante — e "a primeira chamada marca uma diferença, as seguintes quase não acrescentam", que é uma observação operacionalmente muito mais útil.

Correção 2 — a variável em falta

O sinal inverte-se ao acrescentar os incidentes

Acrescentar o número de incidentes sofridos pelo cliente faz o coeficiente das chamadas passar de −0,061 para +0,022 (cap. 5). A leitura muda por completo: entre clientes com o mesmo número de incidentes, quem ligou ao apoio retém-se mais.

O que estava a acontecer é transparente depois de visto: o apoio não causava as saídas, estava a atender quem já tinha problemas. A associação bruta media a gravidade dos problemas, não o efeito do atendimento — e a decisão de negócio que dela saía era cortar precisamente o que estava a ajudar.

Correção 3 — a unidade independente

48 200 linhas, 3 900 clientes

Cada cliente contribui com cerca de doze linhas mensais, e o modelo tratou-as como observações independentes. O erro-padrão correto — calculado ao nível do cliente — é mais de três vezes maior (cap. 7, e volume II, cap. 3).

O intervalo passa de [+0,008; +0,036], que exclui o zero, para [−0,026; +0,070], que o inclui. A precisão anterior era ficção aritmeticamente correta — e note-se que este erro fabrica significância, portanto tende a passar despercebido: dá o resultado que se queria.

Correção 4 — o modelo apropriado

A retenção é 0 ou 1, e o modelo previa 1,07

Ajustar uma recta a uma variável binária produz previsões impossíveis — probabilidades acima de 1 e abaixo de 0 — e resíduos em duas bandas, que era o sinal visível no diagnóstico do capítulo 7.

Com regressão logística (cap. 11), o resultado exprime-se como razão de probabilidades: 1,09, com intervalo [0,94; 1,26]. A conclusão substantiva não muda, mas deixa de haver previsões que não podem existir.

O relatório honesto

Menos afirmação, e muito mais informação

O que sobra é modesto: uma associação positiva, compatível com nenhum efeito e com um efeito moderado, entre clientes com o mesmo número de incidentes. Não é a manchete que o primeiro relatório prometia — e é a única coisa que os dados sustentam.

Repare no que mudou de mais importante: a recomendação inicial era cortar o apoio ao cliente. Cinco verificações depois, os dados apontam ligeiramente no sentido contrário. E a última frase do relatório é a que abre o volume seguinte: quem liga pode diferir de quem não liga em coisas que não observámos — que é a pergunta causal, e que nenhuma quantidade de variáveis de controlo resolve sozinha.

Exercício 9.1 — As cinco correções

Aplique as cinco correções ao último modelo que a sua equipa usou para justificar uma decisão: a forma, a variável em falta, a unidade independente, o modelo apropriado ao tipo de resposta, e a linguagem do relatório. É raro que nenhuma se aplique.

Capítulo 10 Prática

Sobreajuste: o modelo que decorou

Um modelo suficientemente flexível descreve na perfeição os dados que viu — incluindo o ruído — e falha em tudo o resto.

10.1 O problema, em uma frase

A distinção

Há duas coisas nos dados: o padrão, que se repete em novos dados, e o ruído, que é específico daquela amostra. Um modelo demasiado flexível não sabe distinguir os dois e ajusta-se aos dois — o que o faz parecer excelente onde treinou e mau em todo o lado.

É o mesmo mecanismo do volume II: quanto mais liberdade se dá à análise para se moldar aos dados, menos as garantias significam.

10.2 Os sinais

10.3 A validação honesta

Separação simples. Guarde uma parte dos dados, não lhe toque, avalie no fim. Simples e suficiente com muitos dados.

Validação cruzada. Divida em k partes, treine em k−1 e avalie na que sobra, rodando. Usa todos os dados e dá uma noção da variabilidade da estimativa.

Separação no tempo. Se vai prever o futuro, treine no passado e avalie no futuro. Misturar períodos ao acaso é uma das formas mais comuns de fuga de informação — o modelo aprende com dados que na prática não teria.

Separação por grupo. Se há várias linhas por cliente, o mesmo cliente não pode estar no treino e na avaliação. É o erro mais frequente em dados de produto, e produz resultados espetaculares e falsos.

A regra que torna a validação válida

O conjunto de teste só se usa uma vez. Se experimentar quinze modelos e escolher o que ficou melhor no teste, o teste passou a fazer parte do treino — e a estimativa de erro que ele dá é otimista.

A prática correta usa três conjuntos: treino, validação (para escolher entre modelos) e teste (usado uma só vez, no fim). É o mesmo problema das comparações múltiplas do volume II, cap. 8, com outro nome.

10.4 O compromisso, sem misticismo

ModeloErro por simplicidadeErro por instabilidade
Demasiado simplesAlto — falha o padrão que existeBaixo — dá quase o mesmo em qualquer amostra
EquilibradoModeradoModerado
Demasiado flexívelBaixoAlto — muda muito de amostra para amostra

Não há forma de eliminar os dois ao mesmo tempo: reduzir um aumenta o outro. A escolha do nível de complexidade é a escolha de onde ficar entre eles, e faz-se empiricamente, medindo em dados não vistos — não por gosto nem por elegância.

Sobre o assunto do ponto de vista de modelos preditivos, com algoritmos e regularização, Machine Learning & IA trata-o em profundidade.

Exercício 10.1 — Separe por grupo

Se tem várias linhas por entidade, faça a validação de duas formas: ao acaso, e separando por entidade. Compare o erro. A diferença entre os dois números é a medida da fuga que estava a acontecer.

Capítulo 11 Núcleo

Os modelos irmãos

A regressão linear é um caso particular. Quando a resposta não é um número contínuo — ou quando os dados vêm em grupos — há a variante certa, e usá-la resolve problemas em vez de os disfarçar.

11.1 O mapa

A sua resposta é…UseO coeficiente diz
Um número contínuoRegressão linearVariação absoluta em y
Sim ou nãoRegressão logísticaVariação no logaritmo das probabilidades relativas
Uma contagem (0, 1, 2, …)Poisson ou binomial negativaVariação proporcional na taxa
Tempo até um acontecimentoModelos de sobrevivênciaVariação no risco instantâneo
Contínua, mas em gruposModelos de níveis (mistos)Como o linear, com incerteza correta
Porque não usar sempre o linear

Não é purismo. Ajustar uma recta a dados binários produz previsões impossíveis (probabilidades acima de 1), resíduos com padrão garantido, e erros-padrão errados. Ajustar uma recta a contagens que se concentram em zero produz previsões negativas. São problemas concretos, não estéticos — e a variante correta é uma linha de código diferente.

11.2 Logística: a que mais aparece

Converteu ou não, cancelou ou não, clicou ou não — quase todas as perguntas de produto são binárias. Duas notas de interpretação que evitam a maior parte dos enganos:

A recomendação prática

Não reporte coeficientes logísticos. Converta em probabilidades previstas: "para um cliente típico, a probabilidade prevista passa de 12% para 14%". É interpretável por qualquer pessoa, não exagera, e é o que permite decidir.

11.3 Contagens

Número de pedidos, de erros, de visitas. Características que quebram o modelo linear: são inteiras, não negativas, e a variabilidade cresce com a média. O modelo de Poisson trata disso — e tem uma limitação frequente: assume que a variância é igual à média, o que em dados reais raramente acontece. A dispersão excessiva é a norma, e há variantes que a acomodam. Ignorá-la produz intervalos demasiado estreitos, mais uma vez no sentido de fabricar confiança.

E uma nota que se aplica a quase todas as contagens: se as unidades observadas tiveram tempos de exposição diferentes — clientes com dois meses e clientes com dois anos —, é preciso incluir isso no modelo, senão está a comparar contagens que não são comparáveis. É a mesma questão de denominadores do volume I, cap. 7.

11.4 Dados em grupos

O caso mais comum e o mais ignorado

Alunos dentro de turmas, medições repetidas do mesmo cliente, lojas dentro de regiões, sessões dentro de utilizadores. Observações dentro do mesmo grupo parecem-se mais entre si do que com as de outros grupos — logo, não são independentes.

As três saídas, por ordem crescente de sofisticação:

  • Agregar. Uma linha por grupo. Perde-se informação e a inferência fica correta. Frequentemente é suficiente, e é sempre melhor do que ignorar.
  • Erros-padrão agrupados. Mantém as linhas todas e corrige a incerteza. Simples, e resolve o essencial.
  • Modelo de níveis. Estima explicitamente a variação entre grupos e dentro deles, e permite responder a perguntas que as outras não permitem — quanto varia entre lojas, quais se destacam depois de descontado o acaso.

Há aqui uma ligação ao volume I, cap. 8 que vale a pena notar: uma relação que existe entre grupos pode não existir dentro deles, e vice-versa. Um modelo que ignora a estrutura mistura os dois níveis e responde a uma pergunta que não é nenhuma das duas.

Exercício 11.1 — O modelo certo para a sua resposta

Liste os três últimos modelos que a sua equipa ajustou e o tipo de variável de resposta de cada um. Se algum era binário ou uma contagem e foi tratado com regressão linear, refaça com a variante certa e compare os intervalos.

Capítulo 12 Ofício

Reportar um modelo honesto

Um modelo bem feito e mal reportado é um modelo mal feito. O relatório é onde a maior parte do rigor se perde.

12.1 A lista de verificação

1 · Declare o objetivo. Prever, explicar ou descrever (cap. 2). Tudo o resto decorre daqui.

2 · Diga que dados são. Quantas linhas, quantas unidades independentes, que período, que exclusões e quantas.

3 · Mostre a nuvem de pontos das relações principais, antes da tabela.

4 · Reporte coeficientes com intervalos, em unidades interpretáveis.

5 · Escreva a condição por extenso: "entre casas no mesmo bairro e com o mesmo número de quartos".

6 · Diga o intervalo de valores em que o modelo foi ajustado, e que fora dele não se aplica.

7 · Mostre o diagnóstico, nem que seja um gráfico de resíduos.

8 · Diga quantos modelos experimentou antes deste. É a informação mais omitida e uma das mais relevantes.

9 · Use a palavra certa. "Associa-se a", não "causa" — a não ser que tenha o desenho que o justifique (volume IV).

12.2 As frases que traem

Não escrevaEscreva
"O modelo mostra que X causa Y.""X associa-se a Y, condicionado a A e B."
"Controlámos por todas as variáveis relevantes.""Incluímos A, B e C. Não observámos D, que pode influenciar ambos."
"O R² é 0,82, portanto o modelo é bom.""O erro típico é de 18 000 €, contra 41 000 € do modelo trivial."
"Um aumento de 1 unidade em X produz…""Casos que diferem 1 unidade em X diferem, em média,…"
"Não encontrámos efeito de X.""O coeficiente de X é 0,3 [−1,8; +2,4] — este estudo não distingue nada nesse intervalo."

12.3 O modelo mais simples que serve

Uma preferência com razão prática

Entre dois modelos que respondem à pergunta, prefira o mais simples — não por elegância, mas porque: é mais fácil de explicar a quem decide; falha de forma mais previsível; tem menos parâmetros para sobreajustar; e sobrevive melhor à mudança dos dados.

E há uma comparação que devia estar em todos os relatórios: o modelo trivial. Prever sempre a média, ou prever "igual ao mês passado". Se o modelo elaborado não bater isso por uma margem que justifique a complexidade, a complexidade não se justifica — e este teste elimina mais projetos do que qualquer outro.

12.4 Para onde ir a seguir

IV · Causalidade

A pergunta que este volume adiou dezassete vezes: quando é que um coeficiente pode ser lido como efeito. Confundimento, colisores, o que acontece ao controlar pela variável errada, e o que fazer sem aleatorização.

Se o objetivo era prever

Machine Learning & IA — algoritmos, regularização e a prática de treino. MLOps para o que acontece depois de o modelo sair do computador.

Fazer as contas

Análise de Dados para pandas e o ferramental; Datavis com Python para os gráficos de diagnóstico.

Comunicar o resultado

Comunicação de Dados — como mostrar incerteza a quem não a pediu, e Escrita Analítica para as frases de 12.2.

Exercício 12.1 — Refaça um relatório

Pegue no último relatório de modelação da sua equipa e passe-o pelos nove pontos de 12.1. Conte quantos faltavam. Reescreva-o. É a forma mais rápida de instalar a lista como hábito.