Capítulo 01 Fundamento
A média mente, e mente de forma previsível
O primeiro instinto perante uma coluna de números é somar e dividir. É também a operação que mais informação destrói — e o modo como falha tem padrão.
1.1 O bar com o milionário
Dez pessoas num bar ganham 30 000 € por ano cada. Entra uma que ganha 5 milhões. A média salarial do bar passa a 481 818 €. Nenhuma das onze pessoas ganha nada parecido com isso.
Não é um truque nem um caso extremo inventado: é o comportamento normal da média em qualquer distribuição assimétrica — e salários, receitas por cliente, tempo de resposta, visitas por utilizador e vendas por produto são todos assimétricos. A média é uma boa medida para uma família estreita de distribuições, e a maior parte dos dados reais não pertence a essa família.
A média é o centro de gravidade, não o típico. Responde a "se dividisse tudo por igual, quanto tocava a cada um?" — uma pergunta que raramente é a pergunta. Quando quer saber o que é habitual, a mediana responde; quando quer saber o total, a média multiplicada pelo número de casos responde. Fora disso, a média é um número que se usa por hábito.
1.2 Três centros, três perguntas
| Medida | Responde a | Falha quando |
|---|---|---|
| Média | Quanto há no total, dividido igualmente | Há assimetria ou valores extremos — puxa-a para a cauda |
| Mediana | O que acontece à pessoa do meio | A distribuição tem dois grupos distintos: o meio pode não existir |
| Moda | O caso mais comum | Dados contínuos, ou várias modas — e aí a existência de várias é o achado |
Média e mediana muito diferentes não são um problema de dados: são a informação. Media > mediana diz que há uma cauda à direita — poucos casos muito grandes. É a primeira coisa a verificar em qualquer tabela, e leva dois segundos.
1.3 O paradoxo da turma cheia
Quando duas médias verdadeiras se contradizem
Uma escola tem 10 turmas: nove com 20 alunos e uma com 200. A direção calcula o tamanho médio de turma: (9×20 + 200) / 10 = 38 alunos.
Um jornalista pergunta aos alunos quantos colegas têm na turma. 180 alunos respondem "20"; 200 respondem "200". Média: 115 alunos.
Nenhum dos dois mentiu. A direção calculou a média por turma, o jornalista a média por aluno — e as turmas grandes contêm mais alunos, portanto aparecem mais vezes na segunda contagem.
Enviesamento de tamanho. Aparece sempre que a unidade de contagem não é a unidade de interesse: a duração média de uma consulta médica difere consoante se pergunte ao médico ou aos doentes na sala de espera; o tamanho médio de uma empresa difere consoante se conte empresas ou trabalhadores. Antes de qualquer média, a pergunta é média de quê, contada uma vez por quem?
1.4 O que esta série é
Este é o volume I de quatro. Trata de olhar para os dados: distribuições, dispersão, percentis, o que a agregação destrói. Não faz inferência — não há intervalos de confiança nem valores-p aqui, e isso é deliberado, porque quase todo o erro de inferência começa num erro de descrição.
Os volumes II (inferência), III (regressão) e IV (causalidade) seguem-se. Para o lado subjetivo da probabilidade — calibração, taxa-base, decisão — a trilha existente já responde: Previsão Calibrada e Decisão sob Incerteza. Para estimar grandezas sem dados, Raciocínio Quantitativo. Para fazer isto em Python com pandas, Análise de Dados.
Pegue nas cinco métricas que a sua equipa acompanha e calcule as duas para cada. Onde a diferença passar dos 20%, a média está a ser puxada por uma cauda — e provavelmente está num relatório, sozinha, a ser lida como se fosse o típico.
Capítulo 02 Fundamento
Olhe para a distribuição antes de a resumir
Um resumo estatístico é uma compressão com perdas. A questão é o que se perdeu — e a única forma de saber é ver a forma primeiro.
2.1 Números iguais, dados diferentes
É possível construir conjuntos de dados com a mesma média em x, a mesma média em y, o mesmo desvio-padrão em ambos e a mesma correlação — e que, desenhados, mostram coisas completamente distintas: uma reta, uma curva, uma nuvem com um ponto extremo, dois grupos separados, e até um desenho de um dinossauro.
Isto não é uma curiosidade: é a demonstração de que as estatísticas de resumo não identificam os dados. Duas realidades opostas podem produzir a mesma tabela. Só o desenho as separa.
Desenhe sempre antes de resumir. Um histograma leva cinco segundos e apanha: assimetria, várias modas, valores impossíveis, truncagem, arredondamentos, e o pico em zero que ninguém mencionou. Nenhuma destas coisas aparece numa média.
2.2 O que procurar na forma
| O que vê | O que significa | O que fazer |
|---|---|---|
| Uma corcunda, simétrica | Média e mediana coincidem; o resumo habitual serve | Seguir |
| Cauda longa à direita | Poucos casos muito grandes dominam o total | Mediana e percentis; considerar escala logarítmica |
| Duas corcundas | Provavelmente dois grupos misturados | Encontrar a variável que os separa — é o achado, não um defeito |
| Pico em zero e o resto espalhado | Dois processos: "acontece ou não" e "quanto, se acontecer" | Analisar em separado; a média mistura-os e não descreve nenhum |
| Corte abrupto num extremo | Truncagem ou um limite do sistema | Procurar a regra: um plafond, um limite de campo, um filtro esquecido |
| Picos em números redondos | Dados declarados por pessoas, que arredondam | Não confundir com um padrão real |
Duas corcundas são quase sempre a descoberta mais valiosa que um histograma dá. Significa que a população não é uma: são duas, e a média está entre elas, a descrever ninguém — como o "tempo médio de carregamento" de uma aplicação que tem utilizadores em fibra e em rede móvel. Otimizar contra essa média melhora a experiência de nenhum dos dois grupos.
2.3 Os três gráficos, e o que cada um esconde
Histograma
Mostra a forma. Esconde: a escolha da largura das barras muda o que se vê — barras largas de mais alisam duas corcundas numa só. Experimente sempre duas ou três larguras antes de concluir.
Caixa de bigodes
Compacto, bom para comparar grupos. Esconde: não distingue uma corcunda de duas. Duas distribuições opostas podem dar caixas idênticas — é o erro do capítulo aplicado a um gráfico.
Função de distribuição acumulada
Mostra toda a distribuição sem escolher larguras, e lê-se diretamente em percentis. Esconde: nada, mas exige hábito para ler. É o gráfico subutilizado do lote.
Nuvem de pontos com transparência
Para muitos pontos, sobrepostos. Esconde: sem transparência, uma zona densa e uma zona saturada parecem iguais, e a densidade é a informação.
Sobre fazer estes gráficos bem — e sobre o que os torna legíveis a quem não os pediu — veja Comunicação de Dados.
2.4 Antes de tudo: olhe para as linhas
Antes até do histograma, abra os dados em bruto e leia vinte linhas — as primeiras, as últimas, e vinte ao acaso. Encontra-se ali, em minutos, o que nenhuma estatística revela: colunas trocadas, datas em três formatos, a cadeia "N/A" numa coluna numérica, valores de teste, e a linha de totais que alguém deixou dentro dos dados.
Faça o histograma da sua métrica principal com três larguras de barra muito diferentes. Se a forma mudar de conclusão entre elas, tem um problema de resolução — e nenhuma frase sobre a "distribuição" daquela métrica é defensável até o resolver.
Capítulo 03 Fundamento
A dispersão é a informação
Quase todo o valor de uma análise está na variação, e quase toda a comunicação a deita fora. Um número sozinho é uma resposta a uma pergunta que ninguém fez.
3.1 O rio com um metro de profundidade média
A piada é conhecida — o estatístico que se afogou a atravessar um rio com um metro de profundidade média — e o ponto é sério: a decisão depende quase sempre da cauda, não do centro. Dimensiona-se um servidor para o pico, não para a média; planeia-se um orçamento para o mau ano, não para o ano típico; e uma entrega demora o que demora no dia mau.
3.2 Quatro formas de dizer "quanto varia"
| Medida | Lê-se como | Quando usar |
|---|---|---|
| Amplitude (mín–máx) | Os dois extremos | Rápido e frágil: depende de dois pontos, e cresce só por haver mais dados |
| Desvio-padrão | Distância típica à média | Bom em distribuições simétricas; enganador em assimétricas, pela mesma razão que a média |
| Intervalo interquartis | Onde estão os 50% do meio | Robusto; a escolha por omissão para dados reais |
| Percentis (p50, p90, p99) | Pontos concretos da distribuição | Quando a decisão é sobre a cauda — que é quase sempre |
Desvio-padrão dividido pela média. Serve para uma coisa que as outras não fazem: comparar variabilidade entre grandezas de escalas diferentes. Um desvio de 5 € é enorme num café e irrelevante num carro; 0,05 e 0,002 dizem-no diretamente.
3.3 Latência é o exemplo canónico
Porque a latência média de um serviço é um número inútil
Um serviço tem latência média de 200 ms. Parece bom. A distribuição real:
- p50 = 80 ms — metade dos pedidos é rápida
- p90 = 250 ms — ainda aceitável
- p99 = 3 200 ms — um em cada cem pedidos demora mais de três segundos
Um em cem parece pouco até se fazer a conta que interessa: uma página que faz 20 pedidos tem 18% de probabilidade de apanhar pelo menos um desses. E os utilizadores mais ativos — os que fazem mais pedidos — apanham-nos quase sempre. A cauda não atinge 1% das pessoas: atinge quase toda a gente, algumas vezes.
Para latência, nunca reporte a média. Reporte p50, p90 e p99, sempre os três. E note uma armadilha: percentis não se somam nem se calculam a média — o p99 de um dia não é a média dos p99 horários, e o p99 de duas máquinas não é a média dos dois. Guarde as distribuições, não os resumos.
3.4 A variação que se ignora por comodidade
- Um número sem incerteza. "A conversão é 3,2%" não diz se é 3,2 ± 0,1 ou 3,2 ± 2,0. A segunda não é notícia nenhuma. O volume II trata disto a sério.
- Comparar dois números sem ver a dispersão. "Subiu de 3,1% para 3,4%" é uma frase vazia enquanto não se souber quanto oscila de semana para semana só por acaso.
- A média das médias. Só é igual à média global quando os grupos têm o mesmo tamanho. Fora disso está simplesmente errada, e é dos erros mais comuns em folhas de cálculo.
- Barras de erro ausentes. Um gráfico de barras sem indicação de variação convida a ler diferenças que podem ser ruído.
Pegue no último relatório que enviou. Para cada média, acrescente a mediana e o p90. Veja quantas conclusões continuam a valer. É desconfortável e é o exercício mais honesto deste capítulo.
Capítulo 04 Núcleo
De onde vêm as formas
As distribuições que se encontram não são arbitrárias: cada forma comum é a assinatura de um mecanismo. Reconhecer a forma é uma pista sobre como o mundo produziu aqueles números.
4.1 Quatro mecanismos, quatro formas
| Mecanismo | Forma que produz | Onde aparece |
|---|---|---|
| Somar muitas contribuições pequenas e independentes | Normal (sino simétrico) | Erros de medição, altura de adultos, médias de amostras |
| Multiplicar muitos fatores | Log-normal (assimétrica, cauda direita) | Rendimentos, preços, tempos de tarefa, dimensão de ficheiros |
| Acumular vantagem — quem tem mais recebe mais | Lei de potência (cauda muito pesada) | Ligações a sites, seguidores, vendas por título, cidades |
| Eventos raros e independentes no tempo | Poisson | Chegadas de pedidos, avarias, chamadas por hora |
É a origem de metade dos enganos. Se uma quantidade resulta de somas, os desvios compensam-se e obtém-se um sino simétrico. Se resulta de multiplicações — crescer 3% ao ano, cada etapa reter uma fração —, os desvios acumulam-se em proporção e obtém-se uma cauda direita.
Consequência prática: quando uma quantidade é produto de fatores, trabalhe com o logaritmo. Em escala logarítmica a log-normal volta a ser um sino, as ferramentas habituais voltam a funcionar, e o gráfico deixa de ser uma parede junto a zero com três pontos perdidos à direita.
4.2 A normal é mais rara do que parece
A distribuição normal domina o ensino da estatística por uma razão matemática — o teorema do limite central diz que médias de amostras tendem para ela — e isso é frequentemente lido como se dissesse que os dados tendem para ela. Não diz.
O teorema é sobre a distribuição das médias amostrais, não sobre a distribuição dos dados. Salários não são normais e nunca serão; a média de salários de amostras de 500 pessoas é aproximadamente normal. A primeira afirmação é sobre o mundo, a segunda sobre o procedimento — e é a segunda que sustenta a inferência do volume II.
Consequência: assumir normalidade nos dados quando eles são assimétricos leva a intervalos errados, a "outliers" que não são outliers, e a testes que rejeitam por causa da forma e não do efeito.
4.3 Caudas pesadas mudam as regras
Numa lei de potência, a intuição treinada em sinos falha de forma sistemática:
- A média pode ser instável. Acrescentar um único ponto novo pode mudá-la mais do que os mil anteriores. Se a média salta de cada vez que chegam dados, a causa é esta, não um erro.
- O extremo não é um erro. Num sino, um valor a dez desvios-padrão é quase de certeza um engano de medição. Numa cauda pesada é um sábado normal.
- A regra 80/20 é uma consequência, não uma lei separada. Ver os 20% a explicar 80% do total é sintoma de acumulação de vantagem, e diz que estratégias baseadas na média vão falhar.
- Amostras pequenas subestimam. Numa cauda pesada, uma amostra pequena quase nunca apanha os casos grandes, e por isso subestima o total sistematicamente — não por azar.
4.4 A distribuição que quase ninguém pensa: mistura
Muitos dados reais não seguem nenhuma forma nomeada porque são duas ou mais populações misturadas: compradores e curiosos, contas humanas e robôs, dias úteis e fins de semana, clientes empresariais e particulares. É a explicação mais provável para uma forma estranha, e é a mais fácil de investigar — basta encontrar a variável que separa e desenhar os grupos em separado.
Perante uma distribuição que não se percebe, verifique por esta ordem: 1. são duas populações misturadas? 2. há um limite artificial a truncar (um plafond, um timeout, um campo com máximo)? 3. os dados foram declarados por pessoas (e portanto arredondados)? 4. só depois considere que a forma é mesmo assim.
4.5 Contagens raras e a intuição do acaso
Quando eventos raros ocorrem ao acaso e de forma independente, os intervalos entre eles não são regulares — são irregulares, com aglomerados e vazios. É por isso que uma sequência genuinamente aleatória parece ter padrões, e é por isso que "houve três avarias esta semana e nenhuma no mês passado" pode ser exatamente o que se espera de um processo estável.
A pergunta correta não é "isto é muito?", mas "quanto varia isto quando nada muda?". Uma taxa de 2 avarias por semana produz semanas com 0 e semanas com 5 sem que nada tenha acontecido — e reagir a cada uma delas é a definição de intervenção supersticiosa.
Para cada uma das suas métricas principais, decida se resulta de somas, de produtos, de acumulação de vantagem ou de eventos raros. Depois faça o histograma e veja se a forma corresponde. As que não corresponderem são as interessantes — quase sempre são misturas.
Capítulo 05 Núcleo
Percentis, e porque a média de latência é má prática
Percentis são a ferramenta certa para quase todos os dados assimétricos, e são mal usados com uma regularidade impressionante.
5.1 O que um percentil diz
O percentil 90 é o valor abaixo do qual estão 90% das observações. É simples e tem duas virtudes que a média não tem: é robusto a extremos e lê-se diretamente como uma promessa — "90% dos pedidos respondem em menos de 250 ms" é uma frase que se pode pôr num contrato.
5.2 As três armadilhas
1 · Percentis não se somam
Não existe média de percentis. O p99 do dia não é a média dos p99 das 24 horas; o p99 de dez servidores não é a média dos dez. Para agregar é preciso guardar as distribuições (ou histogramas), não os resumos — e é um erro que se descobre tarde, quando já só se guardou o resumo.
2 · Caudas exigem volume
Um p99 calculado sobre 50 observações depende de meia observação: é ruído com aparência de precisão. Regra grosseira: para um p99 estável, milhares de pontos. Para o p999, muito mais.
3 · O percentil do pedido ≠ o do utilizador
Se uma sessão faz 20 pedidos, a fração de sessões afetadas pela cauda é muito maior que a fração de pedidos. Meça no nível em que a pessoa sente — é o mesmo enviesamento de tamanho do capítulo 1.
E uma quarta, subtil
Há várias definições de percentil e implementações diferentes dão valores diferentes em amostras pequenas. Irrelevante com muitos dados; fonte de discussões inúteis com poucos.
5.3 Onde percentis são a resposta certa
| Pergunta | Medida |
|---|---|
| Que experiência tem a maioria? | p50 (mediana) |
| Que experiência tem quem tem má sorte? | p90 / p95 |
| Que garantia posso prometer? | p99, e com margem |
| Que capacidade tenho de ter? | O pico, não a média — dimensionar pela média é ficar em baixo metade do tempo |
| Quanto vale o total? | Aqui sim, a média × o número de casos |
5.4 Quando percentis também enganam
- Melhorar o p50 pode piorar o p99 — e a média até melhora. Um sistema que serve depressa quem já está em cache pode estar a penalizar cada vez mais quem não está. Olhe sempre para dois percentis, nunca só para um.
- O p99 pode melhorar por desistência. Se os pedidos lentos passarem a expirar antes de terminar, saem da amostra e a métrica melhora enquanto a experiência piora. Toda a métrica que exclui os casos que falham tem este risco — é sobrevivência aplicada a milissegundos.
- Um percentil sozinho não mostra a forma. Duas distribuições com o mesmo p90 podem ser muito diferentes acima dele.
Qualquer métrica que exclua silenciosamente os casos maus melhora sozinha. Antes de comemorar uma melhoria, pergunte o que saiu da amostra — é a pergunta que o volume II vai repetir em contexto de inferência, e é a mesma pergunta.
Reescreva o painel de métricas da sua equipa substituindo cada média por três números: p50, p90 e a contagem. Apresente-o. A primeira reação é quase sempre "não sabia que estava assim" — e é esse o valor do exercício.
Capítulo 06 Prática
Outliers: três tipos, três decisões
Apagar um ponto porque é inconveniente é a forma mais fácil de mentir com dados de boa-fé. A decisão depende inteiramente de saber de onde veio o ponto.
6.1 Os três tipos
| Tipo | Como reconhecer | O que fazer |
|---|---|---|
| Erro | Impossível no mundo: idade 300, peso negativo, data em 1900, o valor 999 usado como "não sei" | Corrigir ou remover, documentando quantos e porquê |
| Outra população | Plausível mas de outro processo: um robô, uma conta interna, um cliente empresarial numa amostra de particulares | Separar e analisar à parte — quase sempre o achado mais interessante |
| Cauda genuína | Raro mas real, e faz parte do fenómeno | Manter. Remover é apagar precisamente a parte que decide |
"Remover tudo acima de 3 desvios-padrão" é uma regra popular e cega: assume normalidade e, numa distribuição de cauda pesada, marca como outliers dados perfeitamente normais — e quanto maior a amostra, mais "outliers" produz, o que devia bastar como aviso.
Regras automáticas servem para sinalizar para inspeção, nunca para remover. A decisão exige olhar para o ponto e perguntar de onde veio.
6.2 O procedimento honesto
1. Assinale os candidatos com uma regra qualquer — serve só para produzir uma lista curta.
2. Olhe para as linhas inteiras, não para o valor isolado. O contexto costuma dizer imediatamente qual dos três tipos é.
3. Classifique cada um. Se não conseguir explicar de onde veio, isso é informação: não sabe.
4. Decida por tipo, não caso a caso — decidir caso a caso é como o enviesamento entra.
5. Reporte os dois resultados, com e sem os pontos em causa. Se a conclusão muda, essa é a conclusão principal, não uma nota de rodapé.
6.3 Um caso onde a exclusão era o erro
Caso · Os clientes que gastavam de mais
Uma equipa analisava o valor médio de encomenda e removia sistematicamente as encomendas acima de 5 000 € — "casos atípicos que distorcem a análise". Eram 0,3% das encomendas.
Ao serem examinadas, essas encomendas representavam 31% da receita total. Não eram erros: eram clientes empresariais a comprar em quantidade, através da loja normal, e ninguém no negócio sabia que existiam a esse nível.
A análise "limpa" descrevia com precisão um negócio que representava dois terços da receita e nenhuma das margens. O achado — que havia um segmento empresarial não servido — estava exatamente nos pontos que eram removidos todos os meses por rotina.
Em dados de negócio, os pontos extremos são frequentemente o negócio. Antes de remover, some o que representam. Se a fração do total for grande, não são ruído, seja qual for a regra estatística que os marque.
E os métodos robustos, não resolvem isto?
Ajudam e não substituem a decisão. Mediana, intervalo interquartis e médias aparadas reduzem a influência de pontos extremos sem os apagar, o que é preferível a remover. Mas reduzir a influência de um ponto é uma escolha tão substantiva como removê-lo — se os extremos são o fenómeno (capítulo 4), um método robusto está a minimizar precisamente a parte que interessa. A robustez é uma ferramenta contra contaminação, não contra caudas verdadeiras, e a diferença entre as duas coisas não é estatística: é de domínio.
Marque os vinte valores mais extremos da sua métrica principal e classifique cada um nos três tipos, olhando para a linha inteira. Depois some quanto representam do total. É frequente descobrir que "os atípicos" são uma fatia grande do negócio.
Capítulo 07 Núcleo
Denominadores: onde as taxas mentem
Uma percentagem é uma divisão, e quase todo o erro em percentagens está em baixo — no que se escolheu para dividir.
7.1 A pergunta que precede a taxa
Dividido por quem, exatamente? "Taxa de conversão de 4%" pode ser sobre visitantes, sobre sessões, sobre visitantes únicos, sobre quem chegou ao carrinho, ou sobre quem viu a página de preços. Cinco números diferentes, todos chamados "conversão", todos comparados entre si em reuniões.
A maior parte das discussões sobre "os números não batem certo" é uma discussão sobre denominadores em que ninguém disse a palavra denominador.
7.2 As quatro formas de o denominador enganar
| Problema | Exemplo | Efeito |
|---|---|---|
| Denominador que muda | Taxa de erros sobre pedidos, num dia em que o tráfego duplicou | A taxa desce sem nada ter melhorado |
| Denominador errado | Acidentes por país, em vez de por quilómetro percorrido | Compara populações, não risco |
| Base pequena | "Subiu 200%" — de 1 para 3 | Percentagem verdadeira, notícia inexistente |
| Base que exclui os casos maus | Satisfação medida só entre quem terminou o processo | Sobrevivência: os insatisfeitos saíram antes de responder |
7.3 Percentagem de quê: pontos e por cento
Uma taxa passa de 4% para 5%. Subiu 1 ponto percentual ou 25 por cento. As duas afirmações são verdadeiras e escolhe-se entre elas para dar a impressão desejada — é a manipulação mais banal que existe em relatórios, e sobrevive porque nenhuma das duas é mentira.
Norma defensável: diga sempre as duas, ou diga os números absolutos. "De 4% para 5% (+1 p.p., +25% em relativo)" não deixa margem, e ocupa uma linha.
7.4 Riscos: relativo, absoluto, e o número que decide
Caso · "Duplica o risco"
Um estudo relata que um hábito duplica o risco de uma doença. É verdade. Os números por trás:
- Sem o hábito: 2 casos em 100 000
- Com o hábito: 4 casos em 100 000
Risco relativo: 2× — a manchete. Risco absoluto acrescido: 2 casos em 100 000, ou 0,002 pontos percentuais. Para evitar um caso seria preciso que 50 000 pessoas mudassem de hábito.
O risco relativo é o número que se comunica; o risco absoluto é o número que decide. Uma afirmação de risco sem a base é incompleta, e a omissão da base é quase sempre deliberada — em saúde, em segurança e em publicidade a fundos de investimento.
7.5 Taxas ao longo do tempo
- Compare períodos comparáveis. Fevereiro tem menos dias; o Natal não é um mês normal; uma semana com feriado não é uma semana.
- Cuidado com coortes incompletas. A "taxa de renovação a 12 meses" só pode ser calculada para quem entrou há mais de 12 meses. Incluir os recentes no denominador faz a taxa parecer catastrófica; excluí-los sem dizer faz o número parecer melhor do que é.
- Um total acumulado nunca desce e por isso parece sempre crescimento. Se quer ver a tendência, olhe para o valor por período.
- Médias móveis alisam e atrasam. Úteis para ver a tendência, péssimas para detetar quando algo mudou.
Liste as dez métricas em percentagem do seu painel e escreva, ao lado de cada uma, o denominador exato. Vai encontrar duas com o mesmo nome e denominadores diferentes, e pelo menos uma que ninguém sabe explicar.
Capítulo 08 Núcleo
O que a agregação destrói
Somar é uma operação que perde informação, e há um caso em que perde tanto que inverte a conclusão.
8.1 O paradoxo, com números
Dois tratamentos para pedras nos rins. Olhando ao total, o tratamento B parece melhor:
| Tratamento A | Tratamento B | |
|---|---|---|
| Total | 78% (273/350) | 83% (289/350) |
Separando por tamanho da pedra:
| Tratamento A | Tratamento B | |
|---|---|---|
| Pedras pequenas | 93% (81/87) | 87% (234/270) |
| Pedras grandes | 73% (192/263) | 69% (55/80) |
A é melhor nas pedras pequenas, melhor nas pedras grandes, e pior no total. Não há erro de aritmética: o tratamento A foi aplicado sobretudo a casos difíceis (263 de 350 eram pedras grandes) e o B sobretudo a casos fáceis. O total mistura a eficácia do tratamento com a escolha de quem o recebeu.
Chama-se paradoxo de Simpson, e o incómodo é que não é uma curiosidade rara: acontece sempre que os grupos têm composições diferentes, o que é a norma em dados observados.
8.2 Qual dos números está certo?
A pergunta parece técnica e não é — não há resposta estatística. Depende do que se quer saber:
- Se quer saber que tratamento escolher para um doente concreto, os números por grupo são os certos: sabe-se o tamanho da pedra antes de tratar.
- Se quisesse saber que resultado teve o hospital no ano passado, o total é o certo — descreve o que aconteceu.
É por isso que este capítulo é a ponte para o volume IV: decidir se se deve separar por uma variável exige uma teoria sobre o que causa o quê. Nenhuma quantidade de dados resolve a questão sozinha, e agregar ou desagregar sem essa teoria é escolher a conclusão ao acaso.
8.3 Onde isto aparece no trabalho normal
| Situação | A composição que engana |
|---|---|
| Um teste A/B "ganhou" no total e perdeu em todos os segmentos | Os grupos receberam misturas diferentes de tráfego (Experimentação) |
| A satisfação média subiu e desceu em todos os produtos | Mudou o peso relativo dos produtos |
| O salário médio da empresa subiu sem ninguém ser aumentado | Saíram pessoas de salário baixo |
| A taxa de erro melhorou depois de uma alteração | Mudou a mistura de tipos de pedido no mesmo período |
| Um país tem mortalidade maior com melhor saúde | A população é mais velha |
Perante qualquer comparação de dois grupos: "as duas populações têm a mesma composição?". Se não têm — e em dados observados quase nunca têm — a diferença total mistura o efeito com a composição, e a única forma de os separar é desagregar ou ajustar.
8.4 A média que se parte, e a que não
- Somas agregam bem. O total de vendas de dois grupos é a soma dos totais. Sem armadilha.
- Médias só agregam com pesos. A média global é a média ponderada pelos tamanhos, nunca a média das médias (o erro do capítulo 3).
- Rácios não agregam de todo. A taxa global é soma dos numeradores / soma dos denominadores — nunca a média das taxas.
- Percentis não agregam de nenhuma forma (capítulo 5). É preciso guardar as distribuições.
Estes quatro pontos explicam a maioria das discrepâncias entre painéis diferentes da mesma empresa — e a discussão sobre "qual é o número certo" costuma ser, na verdade, uma discussão sobre qual das quatro regras foi violada.
Pegue numa comparação recente entre dois grupos (dois meses, dois canais, duas versões) e desagregue por duas ou três variáveis de composição. Se em alguma delas a conclusão se inverter, tem um Simpson — e a decisão que foi tomada a partir do total merece uma revisão.
Capítulo 09 Método aplicado · Demo
Uma métrica desmontada em seis camadas
Role devagar. Um número num relatório — «o tempo médio de resposta é 200 ms» — descascado até dizer o que se passa mesmo.
"200 ms, e melhorou 8%"
É assim que a maior parte das métricas chega a quem decide: um valor, uma comparação e uma seta colorida. O formato é convidativo e não tem sítio nenhum para a dúvida — não diz quantas observações, nem que forma têm, nem o que ficou de fora.
As cinco camadas seguintes são as perguntas que este capítulo inteiro treina a fazer, aplicadas por ordem a um caso só.
A média cai num vale onde não há dados
Cinco segundos de histograma (cap. 2) mostram uma montanha junto aos 60 ms e uma cauda longa à direita. A média, 200 ms, cai entre as duas, numa zona onde quase não há observações — é o centro de gravidade, e não é o típico de nada.
O primeiro diagnóstico está feito com uma divisão: média a dividir por mediana = 2,5. Qualquer valor muito acima de 1 diz que há cauda, e que a média sozinha não deve ser reportada.
Um por cento dos pedidos, dezoito por cento das páginas
Os percentis (cap. 5) dão a forma da cauda: metade dos pedidos responde em 80 ms, mas um em cada cem passa dos três segundos. O erro seguinte seria descartar isso por ser "só 1%".
A conta que desfaz o erro é a do capítulo 1: uma página faz vinte pedidos, portanto 18% das páginas apanham pelo menos um lento. A unidade de contagem — pedidos — não é a unidade de interesse — pessoas a olhar para um ecrã.
Duas corcundas, e a variável que as separa
A forma tem duas modas, o que é o sinal mais informativo de um histograma (cap. 4): quase sempre significa duas populações misturadas. Testar candidatos a variável separadora — região, tipo de conta, dispositivo — leva minutos, e a resposta aqui é a cache.
São dois regimes distintos, com medianas de 55 ms e 890 ms. Nenhuma otimização orientada à média de 200 ms serve algum deles, e é por isso que este passo muda o trabalho e não só o relatório.
A métrica melhorou porque os piores casos saíram da amostra
A última pergunta é a do capítulo 7: o que está no denominador? A métrica conta apenas pedidos que terminaram — os que expiraram aos cinco segundos e os que deram erro não entram.
E os timeouts passaram de 0,4% para 1,9%. Os pedidos mais lentos deixaram de terminar e, ao deixarem de terminar, deixaram de contar. A média melhorou 8% exatamente porque o sistema piorou — a seta verde apontava para o lado errado, e nenhuma das camadas anteriores, sozinha, teria apanhado isto.
Uma linha honesta ocupa seis
O painel final separa os dois regimes, dá dois percentis a cada um, mostra a fração de cada um, e — o mais importante — mostra as exclusões como métrica de primeira classe: timeouts e taxa de cache, ambos com a variação.
Repare que a causa aparece sem ninguém a procurar: a taxa de cache caiu de 91% para 78%, portanto mais pedidos foram para o caminho lento, portanto mais expiraram. A descrição honesta produziu o diagnóstico — e nenhuma inferência foi feita, nenhum teste foi corrido, nenhum valor-p apareceu. É esse o argumento do volume I inteiro.
Aplique as seis camadas à métrica mais importante do seu painel, por esta ordem. Pare quando encontrar a primeira surpresa — e é raro chegar à camada 4 sem encontrar nenhuma.
Capítulo 10 Prática
Comparar sem inferir
Antes de qualquer teste estatístico há uma pergunta mais barata: esta diferença é maior do que a que aparece quando nada muda?
10.1 A linha de base do acaso
Antes de comparar A com B, compare A com A: olhe para a variação da métrica ao longo de períodos em que nada mudou. Se a conversão oscila entre 3,0% e 3,6% de semana para semana por hábito, uma subida para 3,4% não é notícia — e isso soube-se sem nenhum teste.
É a técnica mais subestimada da análise aplicada: desenhe a série histórica e veja a amplitude normal. Muitas discussões sobre significância desaparecem em dois minutos.
10.2 O gráfico que responde por si
- Ponha a série toda, não dois pontos. "Subiu de 3,1% para 3,4%" é convincente até se ver que nos doze meses anteriores oscilou entre 2,9% e 3,7% sem razão nenhuma.
- Marque as intervenções na linha do tempo. Se a subida começou antes da alteração, a alteração não a causou — e isso vê-se, não se testa.
- Compare com um grupo que não mudou, quando existir. Se a métrica subiu igualmente onde nada foi feito, subiu por outra razão (é a semente do volume IV).
- Desconfie de eixos que não começam em zero em gráficos de barras, e de escalas que mudam entre gráficos comparados lado a lado.
10.3 Regressão à média, sem estatística
Caso · A formação que resultou nos piores
Uma empresa identificou as dez lojas com pior desempenho num trimestre e deu-lhes formação intensiva. No trimestre seguinte, nove das dez melhoraram. A formação foi considerada um sucesso e alargada.
O problema: as dez lojas foram escolhidas por terem tido o pior resultado, e um resultado extremo tem sempre duas componentes — o desempenho real e a má sorte daquele trimestre. A má sorte não se repete por definição, portanto o trimestre seguinte seria melhor de qualquer forma.
Verificação barata: as dez melhores lojas, sem formação nenhuma, pioraram no trimestre seguinte. Mesmo mecanismo, sentido contrário.
Sempre que um grupo é selecionado por ser extremo, espere melhoria sem causa. É o motor de metade das crenças em intervenções que não funcionam — em gestão, em desporto, em saúde e em educação. A defesa não é estatística: é não escolher o grupo pelo valor extremo, ou ter um grupo de comparação escolhido da mesma maneira.
10.4 O que é preciso antes de comparar
| Verificar | Porque |
|---|---|
| Mesmo período do ano | Sazonalidade é a explicação alternativa mais comum e a mais fácil de excluir |
| Mesma composição | Simpson (cap. 8). Se as populações diferem, a diferença mistura efeito com composição |
| Mesma definição da métrica | Uma alteração no tracking produz saltos que parecem reais |
| Mesmo denominador | Cap. 7 |
| Nenhum grupo selecionado por ser extremo | Regressão à média (10.3) |
| Dados completos no período recente | Os últimos dias costumam estar incompletos e fazem sempre a métrica "cair" |
Se qualquer destas falhar, nenhum teste estatístico salva a comparação — o teste responde a "esta diferença é maior do que o acaso?", e não a "estas duas coisas são comparáveis?". A segunda pergunta vem primeiro e não tem fórmula.
10.5 A ponte para o volume II
Quando a comparação é legítima e a diferença não se explica pela variação histórica, a pergunta passa a ser quantitativa: que tamanho de diferença é distinguível do acaso, com esta quantidade de dados? É essa a matéria do volume seguinte — e chega-se lá com metade dos casos já resolvidos por descrição.
Para a métrica que a sua equipa acompanha, desenhe os últimos 24 períodos e escreva a amplitude típica de variação. Fixe-a. Da próxima vez que alguém trouxer uma variação, compare com esse número antes de qualquer outra coisa.
Capítulo 11 Crítica
Como os dados chegaram até si
Toda a descrição descreve a amostra que existe, não o mundo. A diferença entre as duas coisas é decidida antes de o primeiro número ser calculado.
11.1 Os aviões que voltaram
Na Segunda Guerra Mundial, analisou-se onde os bombardeiros regressados tinham mais buracos de bala, para reforçar o blindado nesses sítios. Abraham Wald apontou o erro: os aviões analisados eram os que tinham voltado. Os buracos que se viam eram, por definição, em sítios onde um avião podia ser atingido e ainda assim regressar. O blindado devia ir para onde não havia buracos — os aviões atingidos ali não estavam na amostra.
O que é que não está aqui, e porquê? Não é uma pergunta filosófica: tem quase sempre uma resposta concreta e verificável, e é a mais barata de todas as verificações de qualidade.
11.2 O mesmo erro, em roupa moderna
| Amostra | Quem falta | Efeito |
|---|---|---|
| Respostas ao inquérito de satisfação | Quem já desistiu do produto | Satisfação sistematicamente sobrestimada |
| Registos de sessões | Quem não conseguiu sequer entrar | A pior experiência não é medida |
| Currículos de quem foi contratado | Todos os outros | "Os melhores têm X" — e talvez metade dos rejeitados também tivesse |
| Empresas de sucesso num livro de gestão | As que fizeram igual e faliram | Receitas que descrevem sobreviventes, não causas |
| Avaliações de produto | Quem ficou indiferente | Distribuição em U: só muito satisfeitos e muito irritados escrevem |
| Dados de tracking do site | Quem bloqueia scripts | Um segmento inteiro, com perfil próprio, invisível |
11.3 Os buracos que se veem e os que não
- Ausências explícitas. Células vazias. São as boas: sabe-se que faltam.
- Ausências disfarçadas. Zero em vez de "não sei", 999 como código, "N/A" numa coluna numérica, a data de 1970 que é um zero mal convertido. Estas contaminam todas as contas em silêncio.
- Linhas que nunca chegaram. As mais perigosas, porque não deixam rasto: um filtro no pipeline, uma junção que descartou o que não emparelhava, um limite de exportação de 10 000 linhas.
Conte, em cada passo do tratamento, quantas linhas entraram e quantas saíram. Uma junção que passa de 50 000 para 48 200 linhas perdeu 1 800 pela calada, e ninguém repara se não for contado. É a prática mais rentável em toda a preparação de dados, e ocupa duas linhas de código.
11.4 Ausências que não são aleatórias
A questão não é quantos faltam, mas se faltam de forma sistemática. Se os rendimentos em falta são sobretudo dos mais ricos, ignorar as linhas incompletas enviesa tudo o que se calcule a seguir. E ausências sistemáticas são a norma, não a exceção — as pessoas não respondem precisamente às perguntas que lhes custam.
Preencher espaços vazios com a média é a solução mais popular e das piores: reduz artificialmente a variação (todos os casos preenchidos ficam iguais), o que faz qualquer análise posterior parecer mais precisa do que é. Se for para preencher, diga-o e mostre o resultado com e sem preenchimento.
11.5 Quem definiu o que se mede
Nenhum dado é neutro: alguém decidiu que aquilo valia a pena registar, em que categorias, e com que granularidade. Essas decisões, tomadas anos antes, limitam o que hoje é possível perguntar.
- Categorias que já não descrevem o negócio, mantidas para não quebrar relatórios antigos.
- Um campo de texto livre onde devia haver uma escolha — e portanto quinze grafias da mesma coisa.
- Uma coisa importante que ninguém regista, e sobre a qual não há dados por nunca ter havido.
A última é a mais séria e a mais invisível: analisa-se aquilo que existe, e o que existe determina que perguntas parecem fazíveis. Sobre ir buscar o que não está registado, veja Pesquisa com Utilizadores.
Para o seu conjunto de dados principal, escreva uma lista de quem ou do que não está lá e porquê. Depois estime a dimensão de cada ausência. Se não conseguir estimar nenhuma, essa é a primeira coisa a medir.
Capítulo 12 Ofício
Uma rotina de dez minutos, e para onde ir
Tudo o que está nesta apostila cabe numa lista curta de verificações que se faz antes de qualquer análise. É esse o resultado prático.
12.1 A rotina
1 · Leia vinte linhas em bruto. Primeiras, últimas, e vinte ao acaso. Apanha formatos, códigos disfarçados e linhas de total dentro dos dados.
2 · Conte as linhas em cada passo. Entraram quantas, saíram quantas. Qualquer perda inexplicada pára tudo o resto.
3 · Desenhe o histograma. Com duas ou três larguras. Procure: assimetria, duas corcundas, pico em zero, corte abrupto.
4 · Média a dividir por mediana. Muito acima de 1 significa cauda — e que a média não deve ir sozinha para lado nenhum.
5 · Escreva o denominador. Por extenso, para cada taxa. "Dividido por quem, exatamente?"
6 · Pergunte quem falta. Quem não está na amostra e porquê.
7 · Desagregue por uma variável de composição. Se a conclusão mudar, era composição e não efeito.
8 · Compare com a variação histórica antes de chamar diferença a uma diferença.
Nenhum destes oito passos exige estatística inferencial, ferramentas especiais ou mais dados do que já tem. Levam dez minutos e apanham a maior parte dos erros que depois seriam apresentados com um valor-p a fingir de garantia. Um erro de descrição não é corrigido por inferência — é amplificado por ela.
12.2 Cinco frases para eliminar dos relatórios
| Não escreva | Escreva |
|---|---|
| "A média é X." | "Mediana X, p90 Y, com N observações." |
| "Subiu 25%." | "De 4% para 5% (+1 p.p., +25% relativo)." |
| "Os utilizadores preferem…" | "Dos 340 que responderam, 61%…" |
| "Removemos os outliers." | "Excluímos 12 registos com valores impossíveis (lista em anexo); com e sem, o resultado é…" |
| "A taxa de conversão é 4%." | "4% das sessões com produto no carrinho (denominador: 12 400 sessões)." |
12.3 O que vem nos volumes seguintes
II · Inferência
Da amostra à conclusão: variação amostral, erro-padrão, o que um intervalo de confiança afirma de facto, valor-p e o que ele não é, poder, comparações múltiplas, e porque tantos resultados publicados não se replicam.
III · Regressão e Modelos
Regressão como ferramenta para explicar, ler um coeficiente sem o sobre-interpretar, interações, pressupostos e o que os quebra, sobreajuste e validação.
IV · Causalidade
Do que correlaciona ao que causa: confundimento, colisores, desenhar suposições em vez de as esconder, e o que fazer quando não se pode aleatorizar.
E o que já existe
Para probabilidade subjetiva e decisão: Previsão Calibrada, Decisão sob Incerteza. Para estimar sem dados: Raciocínio Quantitativo.
12.4 Onde aplicar isto amanhã
- Análise de Dados — fazer tudo isto em Python, com pandas.
- Comunicação de Dados — apresentar distribuições e incerteza a quem não as pediu.
- Experimentação & A/B Testing — o caso particular em que se controla a atribuição.
- Business Intelligence — onde os denominadores do capítulo 7 vivem, em painéis que muita gente lê.
- Pensamento Crítico e Escrita Analítica — o lado argumentativo do mesmo cuidado.
Aplique os oito passos de 12.1 ao próximo pedido de análise que receber, antes de escrever qualquer conclusão. Cronometre. Se demorar mais de vinte minutos, é porque encontrou alguma coisa — e é esse o ponto.