Apostila · Design

UX writing:
o texto é
interface

Tire as palavras de um ecrã e fica uma grelha de caixas cinzentas onde ninguém sabe o que fazer. Tire a cor e o layout e ainda se percebe bastante. O texto carrega mais informação por pixel do que qualquer outro elemento — e é o único que costuma ser escrito depois de tudo estar decidido.

12 capítulosdo rótulo de um botão ao glossário da equipa
1 demo ao vivodo mesmo ecrã em cinco versões
13 exercíciospara fazer no produto onde trabalha

↓ role para começar

Capítulo 01 Fundamento

O texto é interface

Numa aplicação, quase tudo o que a pessoa vê são palavras. Tratá-las como conteúdo a preencher no fim é a origem da maior parte da má experiência que se atribui ao desenho.

1.1 Conte as palavras do próximo ecrã que desenhar

Abra qualquer aplicação que use e olhe para um ecrã: o título, os rótulos dos menus, os nomes dos botões, os cabeçalhos das colunas, os textos de ajuda, as mensagens de estado. Tire tudo o que é palavra e fica uma grelha de caixas cinzentas onde ninguém sabe o que fazer. Tire toda a cor e o layout, deixe só as palavras, e ainda se percebe bastante.

A assimetria

O texto carrega mais informação por pixel do que qualquer outro elemento do interface — e é a única parte que costuma ser escrita depois de tudo estar decidido, muitas vezes por quem não esteve na conversa. É por isso que "lorem ipsum" é um problema de método e não um detalhe: um ecrã desenhado com texto falso foi desenhado sem a parte que faz o trabalho.

1.2 O que é microcópia

É microcópiaNão é
O nome de um botão, um rótulo de campo, uma mensagem de erro, um estado vazio, um texto de confirmação, um cabeçalho de tabela, um tooltipUm artigo do blogue, a narrativa da marca, o texto da página inicial, um email de campanha
Lê-se em menos de um segundo, no meio de uma tarefa, por alguém que não quer estar a lerLê-se com atenção, por alguém que decidiu ler
Falha silenciosamente: a pessoa hesita, clica no sítio errado, desisteFalha visivelmente: ninguém partilha, ninguém converte

1.3 O lugar disto no catálogo

Delimitação

Esta apostila é sobre o texto dentro do produto. Storytelling trata da narrativa de marca, que é outro ofício com outras regras. Guia de Elementos de Interface descreve os componentes — esta apostila trata do texto que vive dentro deles. Pesquisa com Utilizadores é como se descobre que uma palavra não está a funcionar, e Acessibilidade & WCAG cobre o texto que só é lido por leitores de ecrã, que aqui aparece no capítulo 11.

1.4 Três reescritas para dar o tom

Antes

"Ocorreu um erro. Código: 0x8007007E"

A pessoa não sabe o que aconteceu, de quem é a culpa, nem o que fazer.

Depois

"Não conseguimos guardar as alterações — a ligação caiu. O rascunho está guardado; tente outra vez."

O que falhou, porquê, o que se perdeu (nada) e o passo seguinte.

Antes

Botão: Submeter

Submeter o quê, a quem, e o que acontece a seguir?

Depois

Botão: Enviar candidatura

O botão diz o que vai acontecer. Custa duas palavras.

Exercício 1.1 — O ecrã sem imagens

Escolha um ecrã do produto onde trabalha e transcreva as palavras, por ordem de leitura, sem formatação nenhuma. Dê a lista a alguém de fora e pergunte o que aquele ecrã faz. O que essa pessoa não perceber é microcópia por corrigir, não desenho por melhorar.

Capítulo 02 Fundamento

Claro, breve, agradável — nesta ordem

Há três critérios para julgar microcópia e a ordem entre eles não é negociável. Quase todo o mau texto de interface vem de trocar a ordem.

2.1 A hierarquia

OrdemCritérioSacrifica-se quando…
1.ºClaro — a pessoa percebe o que acontece se clicarNunca
2.ºBreve — não gasta o tempo de quem lêQuando encurtar torna ambíguo
3.ºAgradável — soa a gente, não a formulárioSempre que colide com os dois de cima
Onde a inversão faz estragos

Breve antes de claro: "Aplicar" em vez de "Aplicar desconto a esta encomenda". Poupou três palavras e criou uma hesitação de dois segundos, multiplicada por todas as pessoas que veem o ecrã.

Agradável antes de claro: "Ups! Alguma coisa correu mal 🙈". Não diz o que correu mal, não diz o que fazer, e a piada gasta-se à segunda vez — enquanto o erro não se gasta. É o defeito mais comum das equipas que descobriram o tom de voz antes de descobrirem a clareza.

2.2 O teste do meio da tarefa

Toda a microcópia é lida por alguém que está a meio de outra coisa, com pressa, provavelmente irritado, e que não vai reler. É um contexto de leitura completamente diferente daquele em que o texto é escrito — calmamente, por alguém que já sabe tudo sobre o sistema.

A regra prática

Leia a sua frase uma só vez, depressa, e pergunte: consigo dizer o que vai acontecer? Se precisou de reler, não passa. Reler é gratuito para si, que a escreveu; não é para quem chega ali pela primeira vez com um problema.

2.3 As palavras que não significam nada

EvitePorquêUse
SubmeterVocabulário de formulário em papel; não diz o que aconteceEnviar pedido / Guardar / Publicar
ProcessarDescreve o que a máquina faz, não o que a pessoa conseguePagar / Converter / Gerar relatório
InválidoDiz que está errado sem dizer o quê"Faltam 2 dígitos" / "Esta data já passou"
GerirRótulo-guarda-chuva: cabe tudo, logo não orientaEditar equipa / Ver faturas
Configurações avançadasSinaliza "não é para si" e esconde coisas banaisNomear pelo que lá está dentro
Otimizar a sua experiênciaNão tem conteúdo; costuma esconder recolha de dadosDizer o que se faz e porquê

2.4 Escrever do lado de quem lê

A microcópia má descreve o sistema; a boa descreve a pessoa e o objetivo dela. É a mesma correção, aplicada mil vezes:

Repare que a última faz mais do que traduzir: dá o passo seguinte. É o padrão a que voltamos no capítulo 5.

Exercício 2.1 — A ordem invertida

Procure no seu produto três textos que sacrificaram a clareza pela brevidade e um que a sacrificou pela graça. Reescreva os quatro. Se o quarto não existir, ainda bem — mas procure nos estados de erro antes de concluir que não há.

Capítulo 03 Prática

Botões e rótulos: o texto que promete uma ação

Um botão é uma promessa sobre o que vai acontecer a seguir. Se a promessa for vaga, a pessoa hesita; se for falsa, perde-se a confiança de vez.

3.1 Verbo mais objeto

A regra que resolve a maioria dos casos: o botão diz o que vai acontecer, na voz de quem clica. Verbo primeiro, objeto a seguir, sem mais nada.

FracoMelhorPorquê
OKApagar conversa"OK" concorda com o quê? Obriga a reler o diálogo
Sim / NãoSair sem guardar / Continuar a editarSim e não respondem a uma pergunta que já se esqueceu
ContinuarIr para pagamentoContinuar para onde? É o rótulo mais usado e o menos informativo
Guardar alteraçõesGuardar alteraçõesEste está bem — verbo e objeto, sem ambiguidade
O teste do botão sozinho

Tape tudo menos o botão. Ainda se percebe o que faz? Se não, o botão está a apoiar-se no texto à volta — e vai falhar em todos os contextos onde esse texto não é lido, que são quase todos. É também o teste que os leitores de ecrã fazem por si, ao permitirem navegar de botão em botão sem o resto (cap. 11).

3.2 A ação primária diz-se, a secundária também

Num par de botões, os dois carregam informação. O erro comum é escrever bem o primário e deixar o secundário em "Cancelar" — quando "Cancelar" é ambíguo em qualquer ecrã onde já houve uma ação em curso: cancelar a subscrição, ou cancelar este diálogo?

Ambíguo

Cancelar assinatura
[ Cancelar ] [ OK ]

Qual dos dois cancela a assinatura?

Claro

Cancelar assinatura
[ Manter assinatura ] [ Sim, cancelar ]

Ambos os botões dizem o resultado.

3.3 Rótulos de navegação e de campo

3.4 O botão que mente

Caso · "Experimentar grátis"

Um botão dizia Experimentar grátis. Ao clicar, o primeiro passo pedia um cartão de crédito. Tecnicamente verdade — não há cobrança nos 14 dias. Na prática, a taxa de abandono nesse ecrã era de 71%, e o apoio ao cliente recebia mensagens irritadas com a palavra "enganar".

A correção foi de três palavras: Experimentar grátis 14 dias — pede cartão. O abandono naquele ecrã subiu, porque quem não queria dar o cartão parou mais cedo. As ativações completas subiram, e as mensagens de reclamação desapareceram.

A lição

Microcópia honesta piora as métricas de topo do funil e melhora tudo o resto. Quem defende texto claro tem de saber isto de antemão — e medir o passo certo, não o primeiro (Experimentação & A/B).

Exercício 3.1 — Inventário de botões

Liste todos os rótulos de botão do seu produto num ficheiro. Ordene alfabeticamente. Vai encontrar três coisas: sinónimos para a mesma ação, "OK" e "Continuar" em sítios onde não deviam estar, e pelo menos um botão cujo nome ninguém consegue explicar.

Capítulo 04 Prática

Formulários: onde as palavras fazem mais diferença

Um formulário é uma sequência de perguntas feitas por escrito, sem ninguém para esclarecer. Quase tudo o que corre mal aí é texto.

4.1 Rótulo, dica, ajuda, erro — quatro coisas distintas

ElementoServe paraErro habitual
RótuloDizer o que é o campo. Sempre visível.Ser substituído pelo placeholder
Dica (placeholder)Exemplo de formato: "AA-00-BB"Conter a pergunta, que desaparece ao escrever
AjudaExplicar porque se pede, ou onde encontrarEstar escondida num ícone de interrogação
ErroDizer o que corrigir e comoDizer "inválido"
O placeholder como rótulo é um bug, não um estilo

Quando o rótulo vive dentro do campo e desaparece ao escrever, acontece tudo isto: quem se distrai a meio já não sabe o que estava a preencher; quem revê o formulário antes de enviar vê uma lista de valores sem perguntas; o contraste do texto cinzento costuma falhar os mínimos de WCAG; e o preenchimento automático do navegador enche campos que ficam sem identificação visível. É elegante numa maquete de três campos e indefensável num formulário real.

4.2 Explicar porque se pede

Todo o campo que pede algo pessoal ou inesperado precisa de uma linha a justificar. Não é cortesia: é a diferença entre preencher e fechar o separador.

A terceira faz mais uma coisa importante: diz que é reversível. Boa parte da hesitação em formulários não é sobre partilhar o dado — é o medo de ficar preso a uma escolha.

4.3 Obrigatório, opcional, e o que se pede a mais

Marque o que é raro

Se quase tudo é obrigatório, marque os opcionais. Se quase tudo é opcional, marque os obrigatórios. Um asterisco em doze campos de catorze não informa nada.

Cada campo defende-se

Para cada campo, alguém tem de saber que decisão muda com aquele dado. Os que não passam neste teste são os que fazem o formulário parecer interminável — e a percepção de comprimento é o que faz desistir, não o comprimento.

4.4 Validação: quando e como falar

Enquanto escreve: nada. Marcar um email como inválido à terceira letra é acusar alguém de erro a meio de uma frase.

Ao sair do campo: valide o formato e diga logo. É o momento certo: a pessoa ainda está naquele contexto.

Ao enviar: resuma no topo o que falta, com ligações para cada campo, e leve o foco para o primeiro. Uma lista de erros no topo sem ligações é uma caça ao tesouro.

Sempre: se corrigir sozinho — espaços a mais, maiúsculas, o "+351" —, corrija em silêncio em vez de recusar. Não peça a uma pessoa que faça o trabalho que o programa faz melhor.

4.5 Palavras-passe

O campo onde a microcópia falha mais: as regras aparecem depois de a pessoa falhar. Mostre os requisitos antes de escrever, verifique-os em tempo real, e evite regras que já não se defendem (trocar a palavra-passe de 90 em 90 dias produz palavras-passe piores, não melhores).

E o pior texto do género inteiro: "A palavra-passe não cumpre os requisitos." Quais? Diga qual falta, uma a uma.

Exercício 4.1 — Preencher com erros de propósito

Preencha o formulário mais importante do seu produto errando de propósito em cada campo, um de cada vez. Anote a mensagem que recebe. Conte quantas dizem apenas que está errado sem dizer como corrigir. É quase sempre mais de metade.

Capítulo 05 Prática

Erros: as três partes de uma mensagem que serve

Uma mensagem de erro apanha alguém no pior momento possível. É o texto do produto com maior efeito na confiança e o que menos atenção recebe.

5.1 A fórmula

Três partes, por esta ordem

1. O que aconteceu — em linguagem de quem lê, não do sistema.
2. Porquê, se ajudar — só se a razão orientar a próxima ação.
3. O que fazer agora — a parte que quase sempre falta, e a única que resolve alguma coisa.

E uma quarta, invisível: o que aconteceu ao que a pessoa já tinha feito. Dizer "o rascunho está guardado" vale mais do que todo o resto da mensagem.

AntesDepois
"Erro ao carregar ficheiro.""Este ficheiro tem 32 MB e o limite é 10 MB. Comprima-o ou envie em partes."
"Pagamento recusado.""O banco recusou o pagamento. Costuma ser saldo ou um limite de compras online — confirme com o banco ou use outro cartão. Não foi cobrado nada."
"Não foi possível concluir a operação.""Não conseguimos publicar agora. O texto está guardado; tentamos de novo daqui a pouco."

5.2 De quem é a culpa

SituaçãoPosturaExemplo
Falhou do lado do sistemaAssuma, sem drama"Não conseguimos guardar. A falha é nossa e já estamos a ver."
A pessoa escreveu algo que não serveNeutro, sem acusar"Esta data já passou — escolha uma futura." (não: "Data inválida")
Falta uma permissãoDiga quem pode"Só quem administra pode convidar pessoas. Peça a Ana Silva."
Erro de segurança (senha errada)Vago de propósito"Email ou palavra-passe incorretos." Dizer qual dos dois falhou entrega informação a quem tenta entrar

A última linha é a exceção que confirma a regra: é o único caso em que a clareza cede, e cede a uma razão concreta, não ao hábito.

5.3 Onde a mensagem aparece

5.4 O código de erro tem lugar

Códigos técnicos não são inimigos: são inúteis como mensagem e valiosos como apêndice. Ponha a frase humana em primeiro plano e o código pequeno, copiável, no fim — o apoio ao cliente precisa dele, e quem não precisa não o lê.

E quando não sabemos mesmo o que aconteceu?

Acontece, e é legítimo. O que não é legítimo é fingir precisão nem despachar com "algo correu mal". Diga o que sabe e o que não sabe: "Alguma coisa falhou do nosso lado e ainda não sabemos o quê. O seu trabalho está guardado. Tente daqui a alguns minutos; se continuar, escreva-nos com o código ABC-123." Três coisas úteis — o estado dos dados, o passo seguinte e a via de escape — sem inventar uma causa.

Exercício 5.1 — As dez mensagens mais vistas

Peça aos registos as dez mensagens de erro mais mostradas no último mês. Reescreva-as com a fórmula das três partes. É o trabalho de microcópia com melhor retorno que existe, porque atinge exatamente as pessoas que já estão em dificuldade.

Capítulo 06 Prática

Os estados que ninguém escreve

Todo o ecrã tem quatro versões e a maioria das equipas desenha uma. As outras três aparecem em produção, escritas à pressa por quem estava a implementar.

6.1 O inventário dos estados

EstadoQuandoO que o texto tem de fazer
Vazio de primeira vezA conta é nova; ainda não há nadaExplicar para que serve e dar o primeiro passo
Vazio por escolhaApagou tudo, arquivou tudoConfirmar que está tudo bem — é uma conquista, não uma falha
Sem resultadosFiltrou ou procurou e não encontrouDizer o que se procurou e como alargar
A carregarEstá a demorarDizer o que está a acontecer e se pode sair
Erro parcialCarregou metadeDizer o que falta e como tentar só essa parte
SucessoCorreu bemConfirmar o que aconteceu e oferecer o passo seguinte
Os dois vazios não são o mesmo

Um ecrã de tarefas vazio na primeira sessão precisa de ensinar. O mesmo ecrã vazio porque a pessoa terminou tudo precisa de dizer "está tudo feito". Usar o mesmo texto para os dois casos transforma uma vitória num tutorial — e é dos erros mais frequentes e mais fáceis de corrigir.

6.2 O estado vazio como melhor sítio para ensinar

É o único momento em que a pessoa está a olhar para um ecrã sem nada que a distraia e com uma pergunta na cabeça: e agora?. Nenhum tutorial em sobreposição consegue essa atenção.

Desperdiçado

Uma ilustração grande e "Ainda não tem projetos."

Repete o que a pessoa já vê.

Aproveitado

"Um projeto guarda ficheiros, prazos e a equipa num sítio só."
[ Criar o primeiro projeto ]
"Ou comece por um modelo: Campanha · Website · Evento"

Diz o que é, dá a ação, e oferece um caminho para quem não sabe por onde começar.

6.3 Sem resultados: devolver a pesquisa

6.4 A carregar, e a espera longa

Abaixo de um segundo não escreva nada — um texto que pisca é pior que espera nenhuma. Acima de dez segundos, o texto passa a ser o principal instrumento para a espera ser tolerável:

6.5 Sucesso: não desperdice a confirmação

"Guardado com sucesso" gasta um momento de atenção para dizer o que a pessoa já supunha. O mesmo espaço pode confirmar o efeito concreto e abrir o passo seguinte: "Fatura 2024/318 enviada para ana@empresa.pt. Ver fatura · Enviar outra."

A regra dos estados

Ao desenhar qualquer ecrã, escreva as seis versões do texto antes de desenhar uma. Demora vinte minutos, e é a diferença entre um produto que parece cuidado e um que parece cuidado só no caminho feliz.

Exercício 6.1 — As seis versões

Pegue no ecrã principal do seu produto e escreva os seis estados da tabela de 6.1. Depois vá ver quantos existem mesmo no código. O habitual é dois.

Capítulo 07 Prática

Confirmar, avisar, destruir

A caixa de confirmação é o instrumento mais usado e menos eficaz para prevenir erros. Vale a pena perceber quando funciona e o que funciona melhor.

7.1 Porque é que ninguém lê a confirmação

Quem clica em "Apagar" já decidiu apagar. O diálogo que aparece a seguir é lido pelo corpo, não pelos olhos: a mão vai para o botão da direita antes de o texto ser processado. E quanto mais vezes o diálogo aparece — inclusive em ações inofensivas — mais rápido se torna esse automatismo. Confirmações a mais tornam as confirmações importantes invisíveis.

A hierarquia real da prevenção de erros

1. Tornar reversível — desfazer, lixo, versões. Resolve o problema em vez de o adiar.
2. Tornar visível — mostrar o que vai desaparecer, com nome e quantidade.
3. Tornar difícil — escrever o nome para confirmar; só para o que é mesmo irreversível.
4. Perguntar — o diálogo. É o mais fraco dos quatro, e é o primeiro que toda a gente usa.

Um "Anular" durante dez segundos previne mais erros do que qualquer diálogo, e não custa nada a quem acertou.

7.2 Se tiver mesmo de perguntar

Título: a pergunta concreta, com o nome da coisa. "Apagar «Campanha de Natal»?" — não "Tem a certeza?".

Corpo: a consequência que a pessoa não vê. "Apaga também 34 ficheiros e o histórico de mensagens. Não é possível recuperar."

Botões: ambos dizem o resultado. [ Manter ] [ Apagar campanha ]. Nunca [ Cancelar ] [ OK ].

Se for irreversível e grande: peça para escrever o nome. É atrito de propósito, e é o único sítio onde o atrito é a funcionalidade.

7.3 Não seja o botão vermelho de tudo

AçãoTratamento certo
ArquivarSem confirmação. É reversível.
Apagar um item, com lixoSem confirmação, com "Anular" durante alguns segundos.
Apagar 200 itens de uma vezConfirmação com a contagem visível.
Apagar a conta / o espaço de trabalhoEscrever o nome, dizer o que se perde, e — se possível — apagar só ao fim de 30 dias.
Sair sem guardarGuarde o rascunho e não pergunte nada. É a melhor resposta de todas.

7.4 Padrões enganosos: a fronteira

Onde a microcópia deixa de ser desenho e passa a ser manipulação

Três exemplos que aparecem em produtos sérios, escritos por pessoas que não pensaram nisso como manipulação:

  • Culpabilizar a recusa. "Não obrigado, prefiro pagar mais caro." Envergonhar quem recusa é o padrão mais comum, e é o mais fácil de eliminar: escreva simplesmente "Agora não".
  • Assimetria de esforço. Subscrever com um clique, cancelar com um telefonema. Em várias jurisdições isto já é ilegal, e em todas custa reputação.
  • Botão pré-selecionado a favor da casa. A opção mais cara ou a caixa do marketing já marcada. Se a escolha não é neutra, não é uma escolha.
O teste

Se explicasse a mecânica à pessoa, ela acharia bem? É a única linha que separa persuasão de engano, e funciona porque quase todo o padrão enganoso depende de não ser percebido para funcionar.

Exercício 7.1 — Substituir uma confirmação por um desfazer

Escolha uma caixa de confirmação do seu produto e proponha substituí-la por "Anular" durante dez segundos. Estime o custo de implementação. É quase sempre menor do que parece, e é a melhoria de microcópia que exige menos microcópia.

Capítulo 08 Método

Tom de voz sem cair na personalidade

A maior parte dos guias de tom de voz diz que a marca é «amigável, mas profissional», o que não ajuda ninguém a escolher uma palavra. Há uma forma melhor de fazer isto.

8.1 O problema dos três adjetivos

"Somos claros, humanos e confiantes." Nenhuma equipa do mundo diz que é obscura, robótica e hesitante — portanto os adjetivos não distinguem nada, e no momento de escrever um botão não resolvem a dúvida.

O formato que funciona: é X, não Y

Um traço de tom só é útil se excluir uma alternativa que outra marca escolheria:

  • "Direto, não abrupto." — dizemos o preço na primeira frase; não dizemos "recusado" sem explicar.
  • "Calmo, não entusiasmado." — sem pontos de exclamação; a boa notícia diz-se pelo conteúdo.
  • "Técnico quando é preciso, não condescendente." — dizemos "chave de API"; não dizemos "aquela coisa secreta".

O "não" é o que faz o trabalho. Sem ele é decoração.

8.2 O tom muda com o momento

MomentoRegistoPorquê
Boas-vindasPode ter calor e alguma levezaA pessoa está curiosa e sem pressa
Tarefa a meioNeutro e curtoEstá concentrada; qualquer graça é interrupção
ErroSóbrio, prestável, sem piadasEstá irritada; humor lê-se como troça
Perda de dados / falha graveSério e específico. Nada de emojiÉ o momento em que a confiança se ganha ou perde de vez
Conclusão de algo difícilPode celebrar, brevementeFoi mérito da pessoa; reconhecer é justo

Uma marca não tem um tom: tem um registo que se ajusta ao estado de quem lê. É a mesma pessoa a falar, com a sensibilidade de perceber o momento — que é o que se espera de qualquer colega.

8.3 O humor e a sua data de validade

A regra do quinto encontro

Escreva a piada, depois imagine-a na quinta vez que a mesma pessoa vê aquele ecrã — que, tratando-se de um erro, é a quinta vez que alguma coisa lhe correu mal. Se ainda funciona, fica. Quase nunca fica.

O humor pertence aos sítios que se visitam uma vez ou por vontade própria: o 404, o ecrã de boas-vindas, uma página "sobre nós". Não pertence ao caminho crítico nem a nada que se repita.

8.4 Português europeu: decisões que têm de estar escritas

8.5 Um guia de tom que cabe numa página

Estrutura mínima e suficiente

1. Três pares "é X, não Y", com um exemplo real de cada.
2. A tabela de registo por momento (8.2).
3. Vinte palavras: as que usamos e as que não usamos, com a alternativa.
4. Cinco pares antes/depois retirados do produto verdadeiro.
5. Onde perguntar quando há dúvida.

Guias de tom com quarenta páginas não são consultados por ninguém no momento de escrever um botão — e é esse o único momento que interessa.

Exercício 8.1 — Os três pares

Escreva os três pares "é X, não Y" do seu produto. Depois procure no produto uma frase que viole cada um. Se não encontrar nenhuma, os pares provavelmente não excluem nada.

Capítulo 09 Método aplicado · Demo

Um ecrã reescrito cinco vezes

Role devagar. O mesmo momento — um pagamento que falhou — em cinco versões, cada uma a corrigir uma camada diferente do problema.

Versão 1 — a mensagem da máquina

"Transaction failed. Code: DECLINED_51"

Isto não foi escrito: foi deixado passar. É a resposta do fornecedor de pagamentos, mostrada tal e qual porque ninguém decidiu o contrário. Metade da má microcópia do mundo tem esta origem — não é texto mau, é texto de outra pessoa a aparecer no seu produto.

Nesse instante a pessoa tem três perguntas: o que falhou, fui cobrada, e o que faço agora. O ecrã responde a zero.

Versão 2 — o falso conserto

Traduzir para português não é reescrever

"O pagamento falhou. Tente novamente." Está em português, é curto, e é onde a maior parte das equipas dá o trabalho por feito. Mas "tente novamente" é um conselho errado: com o mesmo cartão vai falhar outra vez, porque o problema nunca foi a tentativa.

Uma instrução que não funciona é pior que nenhuma — a segunda falha custa mais confiança do que a primeira.

Versão 3 — causa e caminho

Uma causa provável vale mais que uma causa exata

O sistema muitas vezes não sabe porque o banco recusou — os códigos são deliberadamente vagos. Isso não impede de dizer o que costuma ser: saldo, ou um limite para compras online. É honesto ("costuma ser"), é acionável, e cobre a maioria dos casos.

E os botões deixaram de ser "OK": passaram a ser as duas coisas que a pessoa pode mesmo fazer. Compare com a regra do capítulo 3 — cada botão diz o resultado.

Versão 4 — a quarta parte

"Não foi cobrado nada. A sua encomenda está guardada."

É a linha que muda o ecrã, e é a que quase nunca é escrita — porque quem escreve sabe que não houve cobrança e que o carrinho persiste, e por saber não imagina a dúvida. É a maldição do conhecimento em duas frases.

As duas perguntas reais naquele segundo não eram sobre o cartão. Eram: perdi dinheiro? e perdi o trabalho que já fiz?. Responder-lhes é o que baixa as chamadas ao apoio, mais do que qualquer explicação sobre o banco.

Versão 5 — sair do ecrã

A melhor mensagem de erro é a que ninguém lê

Chegados a uma boa versão 4, vale a pena a pergunta que devia ter vindo primeiro: este ecrã tem de existir? Validar o cartão antes; guardar um cartão alternativo e repetir sozinho; avisar mais cedo, quando ainda dá para trocar sem perder o contexto.

É o limite do ofício e convém dizê-lo com todas as letras: a microcópia excelente serve muitas vezes para tapar um problema que era de desenho ou de engenharia. Escrevê-la bem é o trabalho; saber quando propor eliminá-la é o que separa quem escreve interfaces de quem escreve textos.

Exercício 9.1 — As cinco versões

Pegue no pior erro do seu produto e escreva as cinco versões desta demo, por ordem. Depois leve a versão 5 a uma pessoa de engenharia e pergunte quanto custa. Uma das três perguntas é quase sempre barata.

Capítulo 10 Prática

Números, datas, nomes: a microcópia que não é frase

Grande parte do texto de um produto não são frases — são valores formatados. É onde estão os erros que passam despercebidos até irritarem toda a gente.

10.1 Tempo: relativo ou absoluto

DistânciaFormatoPorquê
Menos de uma hora"há 12 minutos"Relativo é imediatamente compreensível
Hoje"às 14:32"A hora exata é útil e curta
Esta semana"terça, 14:32"O dia da semana localiza melhor que a data
Mais antigo"14 mar 2026""há 8 meses" obriga a fazer contas de cabeça
SempreData completa no tooltipQuem precisa do exato, tem-no sem poluir a lista
Fuso horário e o erro do "amanhã"

Um prazo apresentado sem fuso é uma armadilha para equipas distribuídas — e "termina amanhã" numa página que ficou aberta desde ontem à noite está simplesmente errado. Datas absolutas envelhecem bem; textos relativos gerados no servidor não.

10.2 Zero, um, muitos

10.3 Dinheiro e unidades, em português europeu

Convenções

Vírgula decimal e espaço nos milhares: 1 234,56 €. O símbolo depois do valor, com espaço. Percentagem com espaço: 15 % — embora "15%" seja hoje tão comum que qualquer das duas passa, desde que seja sempre a mesma.

Preços

Diga sempre se inclui IVA — é a pergunta número um do apoio ao cliente em lojas portuguesas. E o preço mensal de um plano anual escreve-se com a condição colada: "9 €/mês, faturado anualmente", nunca só "9 €/mês" com a condição num asterisco.

10.4 Nomes de pessoas

10.5 Truncar bem

Toda a interface trunca alguma coisa. As regras que evitam os piores casos:

Exercício 10.1 — Os casos-limite

Encha o seu produto com: zero itens, um item, 1 248 391 itens, um nome com 60 caracteres, um nome com 2, e um preço de 0,00 €. Fotografe o que se parte. Quase tudo o que encontrar é microcópia, não CSS.

Capítulo 11 Prática

O texto que a máquina lê

Parte da microcópia nunca aparece no ecrã: é lida em voz alta por leitores de ecrã, indexada por motores de busca, ou traduzida por outra pessoa a meio mundo de distância.

11.1 Escrever para quem ouve o interface

Um leitor de ecrã não vê o layout: percorre os elementos por ordem e lê o que encontra. Isso muda o que uma palavra tem de conter.

No ecrãOuvido isoladamenteCorreção
Um botão "Ver mais" repetido em 12 cartões"Ver mais, botão" doze vezes seguidasTexto acessível distinto: "Ver mais sobre Design de Serviços"
Um ícone de lixo, sem texto"Botão" — e nada maisaria-label="Apagar fatura 2024/318"
"Clique aqui"Não diz para onde vaiO texto do link descreve o destino
Erro a vermelho junto ao campoPode nunca ser anunciadoAssociar ao campo e anunciar a mudança
A regra que resolve quase tudo

Todo o elemento interativo tem de fazer sentido lido sozinho, fora de contexto. É o mesmo teste do botão tapado do capítulo 3 — o que é boa microcópia visual é, quase sempre, boa acessibilidade. Os detalhes técnicos estão em Acessibilidade & WCAG.

11.2 Texto alternativo de imagens

11.3 Linguagem simples não é linguagem infantil

Escrever de forma acessível é escolher a palavra comum quando ela serve, não empobrecer o conteúdo. "Utilizar" → "usar". "Efetuar o pagamento" → "pagar". "Proceder à submissão" → "enviar". O ganho é para toda a gente, e é maior para quem lê numa segunda língua, para quem tem dislexia, e para quem está com pressa — que é toda a gente, a maior parte do tempo.

Onde a simplificação tem limite

Termos técnicos corretos não devem ser trocados por aproximações vagas. Chamar "aquela chave secreta" a uma chave de API não simplifica: impede a pessoa de procurar ajuda, porque lhe tirou a palavra que precisava para procurar. Simplifique a sintaxe, não o vocabulário exato.

11.4 Escrever para ser traduzido

ProblemaPorquêO que fazer
Frases montadas por pedaços"Apagar" + " " + nome + " " + "agora?" quebra-se em línguas com outra ordemFrase inteira com um marcador: "Apagar {nome} agora?"
Texto sem contexto para quem traduz"Estado" é substantivo ou verbo? Cabeçalho ou rótulo?Nota junto à chave: onde aparece e que espaço tem
Layouts justosO alemão cresce 30% e o português cerca de 20% face ao inglêsDesenhar com folga; testar com a língua mais longa
TrocadilhosNão sobrevivem à tradução; produzem frases estranhasGuardar para conteúdo de marca, não para interface
Género e plural no código"1 ficheiro(s) selecionado(a)"Formas plurais próprias da língua, não parênteses

11.5 Títulos que também são resultados de busca

O título de uma página é lido em três sítios: no ecrã, no separador do navegador e no resultado de pesquisa. O mesmo texto serve os três se for específico e começar pelo que distingue — "Fatura 2024/318 · Uniana", não "Uniana · Área de cliente · Faturação · Detalhe".

Exercício 11.1 — Ouvir o seu produto

Ative o leitor de ecrã do sistema (VoiceOver no macOS, Narrador no Windows) e percorra um fluxo do seu produto de olhos fechados, só pelo teclado. Conte quantas vezes ouve "botão" sem saber que botão é. É a hora mais desconfortável e mais produtiva desta apostila.

Capítulo 12 Operação

Como se trabalha isto

Microcópia boa não sai de talento: sai de estar na conversa a tempo, de ter um sítio onde as decisões vivem, e de se poder testar como qualquer outra parte do desenho.

12.1 Chegar a tempo

Quando o texto entraO que acontece
Depois do ecrã desenhadoEscreve-se para caber na caixa. A caixa foi dimensionada com lorem ipsum, portanto a caixa está errada.
Ao mesmo tempo que o ecrãO texto muda o desenho e o desenho muda o texto. É aqui que se descobre que o ecrã precisa de menos elementos e não de uma frase mais curta.
Antes do ecrãEscrever o fluxo todo em texto simples — só as frases, por ordem — expõe os buracos de lógica antes de custarem alguma coisa. É o método mais barato do capítulo.
O guião antes da maquete

Escreva o fluxo como se fosse um diálogo entre a pessoa e o produto, em texto corrido, sem pensar em ecrãs. Onde a conversa ficar estranha — o produto a pedir a mesma coisa duas vezes, a anunciar algo que ninguém perguntou — há um problema de fluxo, não de redação. Dez minutos, e apanha o que a maquete esconde.

12.2 Testar texto

Teste dos cinco segundos

Mostre o ecrã cinco segundos e pergunte o que aquele botão vai fazer. Barato, rápido, e apanha a maioria das ambiguidades.

Teste da árvore

Só os rótulos de navegação, sem interface: "onde procuraria X?". Isola problemas de vocabulário dos de desenho.

Comparação A/B

Para textos vistos por muita gente — botões de conversão, assuntos de email. Mede quanto, não porquê (Experimentação).

Ler em voz alta

O teste gratuito que ninguém faz. Se tropeçar a ler, quem lê também tropeça — e frases que soam a comunicado dão-se logo a conhecer.

Todos estes vêm de Pesquisa com Utilizadores; a única diferença é que a tarefa incide sobre uma palavra em vez de um fluxo.

12.3 O glossário: uma coisa, um nome

O documento mais útil e mais barato do ofício. Três colunas e nada mais:

UsamosNão usamosPorquê
Espaço de trabalhoWorkspace, organização, contaÉ o que os clientes dizem ao telefone
ConvidarAdicionar utilizador, provisionarA pessoa convidada tem de aceitar
ArquivarApagar, remover, ocultarArquivar é reversível; apagar não

A terceira coluna é a que faz o glossário sobreviver: sem o porquê, a decisão é rediscutida de seis em seis meses por cada pessoa nova.

12.4 O texto como parte do sistema

Se a equipa tem um sistema de desenho, a microcópia pertence-lhe: cada componente documentado leva o texto exemplar e as suas regras — o que um toast pode dizer e em quantos caracteres, o que um estado vazio tem de incluir, que verbos usam os botões primários. Escrito uma vez no componente, aplica-se em cem ecrãs sem passar por ninguém (Design Systems & Tokens, Guia de Elementos de Interface).

12.5 IA para escrever interfaces

Serve bemServe mal
Gerar dez variantes de um rótulo para escolher e cortarEscolher — a decisão exige saber o que a pessoa está a fazer naquele momento
Encontrar todas as inconsistências de vocabulário no produto inteiroDecidir qual é o termo certo: isso vem do que os clientes dizem, não do que é mais comum na internet
Traduzir um primeiro rascunho para revisão humanaTraduzir sem contexto: sem saber onde a frase aparece, a tradução é uma aposta
Aplicar regras explícitas: eliminar "submeter", encurtar para 40 caracteresEscrever mensagens de erro sozinha — não sabe se houve cobrança nem se o rascunho ficou guardado, que é a linha que interessa (cap. 9)
O padrão

A IA é boa a produzir opções e má a produzir critério. E a microcópia é quase toda critério: quem lê, em que estado, com que pressa, e o que perde se falhar. Um texto gerado sem essa informação soa bem e resolve pouco — o que o torna mais difícil de rejeitar numa revisão.

12.6 Para onde ir a seguir

Exercício 12.1 — O primeiro glossário

Escreva as dez primeiras linhas do glossário do seu produto, com as três colunas. Leve-o à equipa. Vai descobrir que pelo menos três termos são discutíveis — e essa discussão, feita uma vez, poupa cem correções.