Apostila profissional · Escrita para Mídia

Guiões multimédia:
escrever para ser
visto e ouvido

Um guia completo — do básico ao muito avançado — para escrever guiões (roteiros) de vídeo, áudio e podcast, e-learning e experiências interativas: do briefing ao documento de produção, os formatos de cada meio, a escrita para o ouvido, a relação entre imagem e palavra, a ramificação, a acessibilidade (legendas e audiodescrição) e o uso responsável de IA.

12 capítulosníveis básico → muito avançado
6 formatoscom modelos prontos
2 demos ao vivocalculadora de duração e um guião reescrito cinco vezes
Acessívellegendas e audiodescrição desde o guião

↓ role para começar — a barra no topo é o seu progresso

Capítulo 01 Básico

O que é um guião multimédia

Um guião não é um texto para ler. É um plano de produção que alguém vai transformar em imagem, som e interação — e que o público nunca verá.

Em Portugal diz-se guião; no Brasil, roteiro. É o mesmo documento: a descrição, por escrito, de tudo o que uma peça de mídia vai mostrar, dizer e fazer, na ordem em que acontece. Esta apostila usa "guião" e trata dos formatos que se cruzam no trabalho de quem produz conteúdo hoje — vídeo, áudio, e-learning e interativos.

1.1 Três diferenças em relação a escrever um texto

Diferença 1

O público não volta atrás

Quem lê pode reler um parágrafo difícil. Quem ouve ou assiste, na maior parte das vezes, segue em frente — e perdeu. O guião precisa de ser compreendido à primeira.

Diferença 2

A palavra divide o trabalho

Num texto, as palavras fazem tudo. Num guião, a imagem, o som, a música e a interação carregam parte do sentido — e a palavra deve fazer só o que eles não fazem (cap. 5).

Diferença 3

O leitor é a equipa

O guião é lido por realizador, locutor, editor, animador, programador, tradutor. Cada um procura nele instruções diferentes; o formato existe para que as encontrem (cap. 3).

Diferença 4

O tempo é material

Cada palavra custa segundos. Um guião de 90 segundos com texto para três minutos não é um guião longo: é um guião errado (cap. 4).

1.2 Quem faz o quê

Em projetos pequenos, a mesma pessoa escreve, grava e edita. Em projetos maiores, o guião é o contrato entre áreas: o que foi aprovado no guião é o que se filma, se grava e se programa. Mudar depois custa muito mais. Por isso, esta apostila insiste em aprovação por etapas (cap. 2) — é a maior economia de todo o processo.

Onde esta apostila se encaixa

Os fundamentos de qualquer história — estrutura, personagem, conflito — estão em Storytelling. A narrativa em jogos está em Narrativa para Jogos. A produção de vídeo e áudio com IA, em Criação e Edição de Vídeos com IA e IA de Voz e Áudio. Aqui o foco é o documento que vem antes de tudo isso.

Exercício 1.1 — Leitor ou ouvinte?

Leia em voz alta este parágrafo, como se fosse a narração de um vídeo: "A implementação, prevista para o terceiro trimestre de 2027, dependerá da aprovação, pelo conselho, do orçamento revisto, cujo montante — superior em 12,5% ao inicial — será submetido em março." O que falha, e como reescrever para o ouvido?

Ver exemplo resolvido

Frase longa, com a informação principal adiada, duas intercalações e números que o ouvinte não retém. Para o ouvido: "O projeto arranca no verão de 2027. Mas antes, o conselho tem de aprovar um orçamento novo — mais caro do que o primeiro. Essa decisão chega em março." Três frases curtas, uma ideia por frase, o número exato vai para o ecrã se for mesmo necessário.

Capítulo 02 Básico

Do briefing à ideia

A maior parte dos guiões fracos não tem um problema de escrita. Tem um problema de briefing que ninguém resolveu antes de começar a escrever.

2.1 As seis perguntas do briefing

PerguntaPorque importa
Para quê? (objetivo)Informar, convencer, ensinar, entreter? Uma peça que tenta tudo não consegue nada
Para quem? (público)O que já sabem, o que querem, em que situação vão assistir ou ouvir
Qual é a mensagem única?Se o público só lembrar de uma coisa, qual deve ser?
Onde? (canal)Rede social, site, sala de aula, plataforma de formação, rádio — cada canal tem regras
Quanto tempo?Duração máxima, e o que isso permite dizer (cap. 4)
Com que meios?Orçamento, equipa, locução, imagens disponíveis, prazo

A mensagem única é a pergunta mais difícil e a mais útil. Se o cliente não consegue respondê-la numa frase, ainda não há guião a escrever — há uma decisão a tomar.

2.2 Aprovar por etapas

Etapa 1 Ideia numa frase (logline) — o quê, para quem, com que efeito
Etapa 2 Sinopse ou tratamento — meia página a duas páginas, sem diálogos nem planos
Etapa 3 Estrutura — os blocos, a ordem e a duração de cada um
Etapa 4 Guião completo — no formato do meio (cap. 3)
Etapa 5 Guião técnico / de produção — tempos, planos, marcações para edição, legendas

Cada etapa é aprovada antes de passar à seguinte. Discutir o tom de uma frase na etapa 4, quando a ideia da etapa 1 ainda não estava acordada, é a origem das revisões intermináveis.

"Mais uma coisinha"

A pressão mais comum sobre um guião é acrescentar: mais uma informação, mais um produto, mais um agradecimento. Cada acréscimo tira tempo e atenção da mensagem única. A resposta profissional não é "não" — é mostrar o custo: "para entrar isto, sai aquilo, ou o vídeo passa de 60 para 90 segundos".

Exercício 2.1 — A mensagem única

Um hospital pede "um vídeo sobre o novo serviço de urgência pediátrica, com o horário, a localização, a equipa, os equipamentos, a história do hospital e como marcar consultas". Formule a mensagem única e diga o que ficaria fora.

Ver exemplo resolvido

Mensagem única: "Se o seu filho precisar de urgência, há agora um serviço só para crianças, aberto 24 horas, aqui." Fica: horário, localização e o ambiente pensado para crianças (mostrado, não dito). Sai: a história do hospital e os equipamentos (outro vídeo ou o site), e as consultas marcadas (que nem são urgência — confundem a mensagem).

Capítulo 03 Intermediário

Os formatos de guião

O formato não é burocracia: é a forma de cada pessoa da equipa encontrar, num relance, exatamente o que tem de fazer.

3.1 Duas colunas (áudio / vídeo)

O formato mais usado em vídeo institucional, publicidade, documentário e televisão. À esquerda, o que se vê; à direita, o que se ouve, linha a linha e sincronizado.

#VídeoÁudio
1Plano aberto: sala de espera colorida, criança a brincar. Texto: URGÊNCIA PEDIÁTRICA · 24HMÚSICA: suave, entra em crescendo.
LOCUTORA (off): Às três da manhã, febre alta. E agora?
2Grande plano: enfermeira ajoelha-se à altura da criança.LOCUTORA: Agora há um serviço só para os mais pequenos.
3Mapa animado com o percurso até à entrada B.LOCUTORA: Aberto todos os dias, a qualquer hora. Entrada B.

3.2 Os outros formatos

FormatoPara quêCaracterísticas
Guião de cena (cinema/ficção)Ficção com personagens e diálogosCabeçalhos de cena (INT./EXT., local, momento), ação no presente, diálogos centrados; uma página ≈ um minuto
Guião de áudio/podcastRádio, podcast, audiolivroUma coluna; marcações de voz, som e música em maiúsculas; pausas indicadas (cap. 7)
Storyboard / animaticAnimação, publicidade, tudo o que depende de enquadramentoDesenhos por plano, com texto e som por baixo; o animatic junta-os com áudio provisório para testar o ritmo
Storyboard instrucionalE-learningPor ecrã: objetivo, conteúdo, narração, interação, feedback, navegação (cap. 8)
Guião ramificadoInterativos, quiosques, jogos, simulaçõesNós com condições e destinos; tabela ou diagrama, não texto corrido (cap. 10)
Na prática · mercado de trabalho

Quem escreve para agências, produtoras e departamentos de formação é avaliado tanto pela clareza do formato quanto pelo texto. Um guião em duas colunas limpo, com tempos e marcações coerentes, diz a quem contrata que você já trabalhou em produção — e que a equipa não vai perder horas a decifrá-lo.

Exercício 3.1 — Escolha o formato

Que formato para: (a) anúncio de 30 segundos animado; (b) episódio de podcast de entrevista; (c) curso online de segurança no trabalho com perguntas; (d) quiosque de museu em que o visitante escolhe o percurso; (e) curta-metragem de ficção.

Ver gabarito

(a) Storyboard, depois animatic. (b) Guião de áudio, com blocos e perguntas (cap. 7). (c) Storyboard instrucional por ecrã. (d) Guião ramificado. (e) Guião de cena.

Capítulo 04 Intermediário · Interativo

Escrever para o ouvido

O texto falado tem gramática própria: frases curtas, a ideia principal primeiro, repetição sem vergonha — e um relógio a correr.

4.1 As regras do ouvido

4.2 Palavras e tempo

Uma narração em português, a um ritmo natural, fica tipicamente entre 120 e 170 palavras por minuto — mais lenta em conteúdo educativo ou institucional, mais rápida em publicidade. Use a calculadora para verificar se o texto cabe na duração:

⏱️ Calculadora de duração da narração
Palavras—
Duração estimada—
Face ao alvo—

A estimativa não substitui o cronómetro

A contagem de palavras dá a ordem de grandeza. A duração real depende das pausas, da ênfase e da música. Antes de aprovar, leia o guião em voz alta com um cronómetro — ao ritmo que o locutor vai usar, não ao seu ritmo de leitura silenciosa.

Exercício 4.1 — Corte para caber

Um guião de narração tem 210 palavras para um vídeo de 60 segundos em ritmo natural. Quantas palavras precisa de cortar, e por onde começa?

Ver gabarito

A 145 palavras/min, 60 s comportam cerca de 145 palavras — corte cerca de 65 (um terço), e deixe margem para pausas e música, idealmente ficando em 120–130. Comece pelo que a imagem já mostra (cap. 5), depois por informação secundária que pode ir para o ecrã ou para a descrição do vídeo, e só no fim mexa nas frases da mensagem única.

Capítulo 05 Intermediário

Imagem, palavra e som

O erro mais comum de quem vem da escrita: fazer a narração dizer o que a imagem já está a mostrar.

5.1 Mostrar, e dizer só o que a imagem não diz

Se a imagem mostra uma enfermeira a sorrir para uma criança, a narração não precisa de dizer "a nossa equipa é simpática com as crianças". A narração ganha quando acrescenta o que a imagem não pode dar: o horário, o porquê, o que o público deve fazer. Um bom teste: tape o áudio e veja o que se percebe só pela imagem; depois feche os olhos e veja o que se percebe só pelo áudio. As duas faixas devem somar, não repetir.

5.2 O que a investigação diz sobre texto no ecrã

Richard Mayer, nos estudos que deram origem à teoria da aprendizagem multimédia, descreveu princípios com efeitos consistentes em peças educativas. Três são diretamente aplicáveis a guiões:

PrincípioO que dizNo guião
RedundânciaImagem + narração tende a funcionar melhor do que imagem + narração + o mesmo texto escrito no ecrãNão ponha no ecrã a narração palavra por palavra; use palavras-chave, números, nomes
CoerênciaMaterial interessante mas irrelevante (música dominante, anedotas, imagens decorativas) prejudica a compreensãoCada elemento precisa de uma função; se não tem, sai
SinalizaçãoIndicar o que é importante (destaques, setas, títulos de secção) ajudaMarque no guião o que deve ser destacado visualmente e quando

Legendas para acessibilidade são outra coisa — não são "texto redundante", são uma alternativa necessária para quem não ouve (cap. 11). O princípio da redundância trata de texto de ecrã decorativo ou didático, não de legendas que o espectador pode ligar.

5.3 Som, música e silêncio

Exercício 5.1 — Tire o redundante

Imagem: mapa com um ponto a piscar na entrada B. Narração: "Como pode ver no mapa, a entrada do novo serviço é a entrada B, que fica no lado norte do hospital, assinalada no mapa." Reescreva.

Ver gabarito

"Entrada B, sempre aberta." O mapa já mostra onde é e que está assinalada; a narração acrescenta só o que o mapa não diz — que está sempre aberta — e repete o nome da entrada para quem não está a olhar.

Capítulo 06 Aplicado

Vídeo curto e vídeo para plataformas

Em redes sociais, o guião compete com o dedo que desliza. Os primeiros segundos decidem se o resto existe.

6.1 A estrutura que funciona em vídeo curto

Gancho 0–3 s: uma pergunta, uma imagem inesperada, uma promessa concreta
Contexto porque isto importa a quem está a ver
Conteúdo a entrega — uma ideia, bem mostrada
Fecho a mensagem única de novo, e uma ação (seguir, visitar, experimentar)

6.2 Vídeos mais longos

Em vídeos de plataforma com vários minutos, o risco é a queda de atenção a meio. O guião ajuda com mudanças de ritmo a cada 30–60 segundos (novo plano, exemplo, gráfico, pergunta), marcadores de estrutura ("três erros; o primeiro…") e um ponto de viragem a meio que renova a promessa. A gestão do canal, a análise de retenção e o que as métricas dizem sobre o guião estão em YouTube: Gestão e Conteúdo.

Exercício 6.1 — Três ganchos

Escreva três ganchos diferentes (até 8 palavras cada) para um vídeo curto sobre como poupar água em casa: um em forma de pergunta, um de número surpreendente e um de imagem.

Ver exemplo resolvido

Pergunta: "Quanta água vai pelo cano enquanto escova os dentes?" Número: "Um duche mais curto poupa (confirme o valor da sua região) litros por dia." Imagem (sem palavras): uma torneira aberta a encher um balde, em acelerado, com um contador a subir. Repare que o gancho numérico exige verificar o número antes de publicar — um gancho falso destrói a credibilidade do resto.

Capítulo 07 Aplicado

Podcast e áudio

Sem imagem, a voz, o som e a estrutura fazem todo o trabalho. O guião de áudio é o mais exigente em clareza.

7.1 Três tipos de guião de áudio

TipoO que se escreveO que fica livre
Totalmente escrito (narrativo, audiolivro, ficção)Tudo, palavra a palavraA interpretação
Semi-escrito (conversa, rubricas)Abertura, transições, fecho, os pontos de cada blocoA conversa em si
Guião de entrevistaPerguntas, ordem, tempo por bloco, perguntas de reservaAs respostas — e o seguimento

7.2 Um guião de áudio, em formato

EP. 12 — "Urgências à noite"                              Duração alvo: 18 min

[GENÉRICO — 0:00–0:15]
MÚSICA: tema do programa, sobe e desce para fundo.

APRESENTADORA:  Boa noite. Hoje falamos daquela hora em que tudo parece
                grave — e às vezes é. Comigo, a enfermeira Sara Lopes.
                (pausa)
                Sara, o que é que um pai deve fazer primeiro?

[BLOCO 1 — Quando ir à urgência · 0:15–6:00]
PERGUNTAS:  1. Que sinais pedem urgência, e quais podem esperar pela manhã?
            2. Qual o erro mais comum que vê chegar às três da manhã?
RESERVA:    — Há diferenças por idade?
SOM:        (nenhum — conversa limpa)

[TRANSIÇÃO — 6:00]
SOM: separador curto.

7.3 Orientar o ouvinte

No áudio, o ouvinte não vê onde está no episódio. O guião resolve isso com sinalização verbal: anunciar o que vem ("vamos ver três situações"), marcar as transições ("segunda situação:"), e recapitular antes do fim. A produção de voz e áudio com IA, e os seus cuidados, estão em IA de Voz e Áudio.

Exercício 7.1 — Perguntas que abrem

Reescreva como perguntas abertas: (a) "A urgência pediátrica é importante?"; (b) "Os pais costumam chegar nervosos?"; (c) "Gosta do seu trabalho?"

Ver gabarito

(a) "O que muda para uma criança ser atendida numa urgência só para crianças?" (b) "Como é o estado dos pais quando chegam, e o que faz nos primeiros minutos?" (c) "Houve um turno que o fez pensar porque escolheu esta profissão?" Perguntas de sim/não dão respostas de uma palavra; perguntas abertas dão histórias.

Capítulo 08 Aplicado

E-learning e vídeo educativo

Um guião educativo não mede sucesso por ser visto até ao fim. Mede por o público conseguir fazer algo que não conseguia antes.

8.1 Começar pelo objetivo de aprendizagem

Antes do guião, escreva o objetivo com um verbo observável: "no fim, o formando consegue identificar os três sinais de alarme", não "vai conhecer os sinais de alarme". O verbo observável diz o que mostrar, o que praticar e como avaliar. Todo o conteúdo que não serve o objetivo é candidato a sair (o princípio da coerência, cap. 5).

8.2 O storyboard instrucional

CampoEcrã 4 — exemplo
Objetivo do ecrãReconhecer o sinal 2: dificuldade em respirar
VisualVídeo curto de criança com respiração acelerada; destaque animado no tórax
Narração"Repare no peito: sobe e desce muito depressa. Isto é um sinal para ir já à urgência."
Texto no ecrãSINAL 2 · RESPIRAÇÃO ACELERADA
InteraçãoO formando carrega no ponto do corpo que mostra o sinal
FeedbackCerto: "Exato — o tórax." Errado: "Olhe de novo para o peito da criança." (volta ao vídeo)
NavegaçãoAvança só após acerto ou segunda tentativa

8.3 Segmentar e praticar

Exercício 8.1 — Verbo observável

Reescreva como objetivos observáveis: (a) "Compreender a política de privacidade"; (b) "Conhecer o novo software de faturação"; (c) "Ficar sensibilizado para a segurança".

Ver gabarito

(a) "Decidir, em três casos reais, se um pedido de dados de cliente pode ser atendido." (b) "Emitir uma fatura com desconto e IVA reduzido sem ajuda." (c) "Identificar, numa foto de um posto de trabalho, quatro riscos de segurança." Cada um diz o que praticar e como verificar.

Capítulo 09 Avançado · Interativo

Um guião reescrito cinco vezes

O mesmo vídeo de 30 segundos para a urgência pediátrica, do texto que o cliente mandou ao guião pronto para produção.

Role o bloco abaixo: o painel escuro mostra cada versão, e a barra indica quanto o texto se aproxima de um guião que se pode produzir.

Versão 1 · o ponto de partida

Tudo o que o cliente quer dizer

"O Hospital, com mais de 50 anos de história ao serviço da comunidade, tem o prazer de anunciar a abertura do seu novo Serviço de Urgência Pediátrica, dotado de equipamentos de última geração e de uma equipa multidisciplinar…" — e continua. Não é mau texto; é um texto para ler, com informação para três vídeos.

Versão 2 · briefing (cap. 2)

O que o pai às três da manhã precisa de saber

Mensagem única: existe urgência só para crianças, aberta 24 horas, na entrada B. A história do hospital, os equipamentos e a marcação de consultas saem — vão para o site e para outras peças.

Versão 3 · ouvido (cap. 4)

Frases que se dizem

"Às três da manhã, febre alta. E agora? Agora há uma urgência só para crianças. Aberta todos os dias, a qualquer hora…" — a calculadora do cap. 4 confirma que cabe em 30 segundos com folga para a música.

Versão 4 · imagem (cap. 5)

Mostrar em vez de dizer

A sala colorida e a enfermeira à altura da criança dizem "pensado para crianças" sem palavras. O mapa diz onde é. A narração encolhe para o que a imagem não pode dizer: a hora, o "sempre aberto", a entrada.

Versão 5 · produção (caps. 6 e 11)

O guião técnico

Tempos por plano, texto no ecrã pensado para quem vê sem som, legendas, uma faixa de audiodescrição curta para os planos sem narração ("Uma enfermeira ajoelha-se e sorri para uma menina"), e a versão vertical de 15 segundos para redes. Agora a equipa pode produzir sem perguntar nada.

O que a demo ensina

O guião ficou três vezes mais curto e mais completo ao mesmo tempo: menos palavras na narração, mais instruções para a equipa. O trabalho do guionista não é escrever mais — é decidir o que cada meio carrega e deixar tudo escrito para quem vai produzir.

Exercício 9.1 — A sua escada

Pegue um texto institucional real (uma página "sobre nós", um comunicado) e leve-o pelas cinco versões para um vídeo de 45 segundos.

Ver o que esperar

A versão 2 é a mais difícil — obriga a escolher, e a escolha costuma não estar no texto original. Se ao chegar à versão 4 a narração não encolher, é sinal de que as imagens planeadas são decorativas e não carregam sentido: volte a pensar no que se vê.

Capítulo 10 Avançado

Guiões interativos e ramificados

Num interativo, o guião deixa de ser uma linha e passa a ser um mapa. Escrever bem continua a ser necessário — mas já não é suficiente.

10.1 Do texto corrido para a tabela de nós

NóConteúdo (ecrã / fala)Condição de entradaOpções → destino
N1"O seu filho tem febre. Que idade tem?"—Menos de 3 meses → N2 · 3 meses ou mais → N3
N2"Em bebés tão pequenos, a febre é sempre motivo para urgência."idade < 3 mesesVer como chegar → N9
N3"Tem algum destes sinais?" (lista)idade ≥ 3 mesesSim → N9 · Não → N4
N4"Pode vigiar em casa. Volte se…"sem sinais de alarmeLigar para a linha de saúde → N8 · Fim

A tabela obriga a responder às perguntas que o texto corrido esconde: de onde se chega a cada nó, para onde se vai, e o que o sistema precisa de lembrar. A mesma lógica — estruturas de ramificação, estado e a explosão combinatória — é tratada em profundidade em Narrativa para Jogos, cap. 3.

10.2 Cuidados próprios dos interativos

Exercício 10.1 — Encontre o buraco

Na tabela 10.1, que caminho está incompleto ou perigoso?

Ver gabarito

O N1 não prevê "não sei a idade" nem valores ambíguos. E o N4 ("pode vigiar em casa") precisa de condições de retorno explícitas e visíveis (os sinais que obrigam a voltar) — um nó de "fique em casa" num interativo de saúde exige revisão clínica e uma saída sempre visível para ligar para a linha de saúde ou para emergência.

Capítulo 11 Muito avançado

Acessibilidade e IA no guião

Legendas e audiodescrição feitas no fim, às pressas, saem más e caras. Pensadas no guião, saem quase de graça.

11.1 Legendas

As diretrizes de acessibilidade web (WCAG) pedem legendas para conteúdo de áudio pré-gravado em vídeo (critério 1.2.2, nível A). Legendas para pessoas surdas vão além da transcrição da fala: identificam quem fala quando não é óbvio e descrevem sons relevantes ("[telefone a tocar]", "[música tensa]"). Do guião, as legendas herdam o texto — e por isso o guião final, revisto, deve estar sincronizado com o que foi realmente dito na gravação.

11.2 Audiodescrição

A audiodescrição narra, para quem não vê, a informação visual essencial que o áudio não dá. As WCAG pedem audiodescrição para vídeo pré-gravado no nível AA (critério 1.2.5). Regras de escrita:

Critérios e testes de acessibilidade em detalhe estão em Acessibilidade (WCAG).

11.3 IA no processo de guião

UsoOnde ajudaO cuidado
Rascunhos e variaçõesGerar alternativas de gancho, títulos, versões mais curtasO rascunho não conhece o briefing nem o público; a escolha continua a ser de quem escreve
Contagem, tempos e formataçãoConverter texto em duas colunas, estimar duraçõesVerificar com cronómetro e leitura em voz alta
Transcrição e legendasTranscrever entrevistas, gerar primeira versão de legendasRevisão humana obrigatória: nomes, termos técnicos, sotaques
Voz sintética e dobragemProtótipos, versões em vários idiomasLicença da voz; nunca clonar a voz de alguém sem consentimento explícito; informar quando a voz é sintética
Factos e números—Modelos inventam dados com confiança. Todo o número e toda a afirmação verificável no guião precisam de fonte

O pipeline de produção de vídeo com IA está em Criação e Edição de Vídeos com IA e em Workflows de Mídia com IA.

Exercício 11.1 — Audiodescrição de um plano

Escreva a audiodescrição (máximo 12 palavras) para: plano de 3 segundos, sem fala, de um mapa animado com um percurso até à "Entrada B".

Ver gabarito

"Mapa do hospital: um percurso leva até à Entrada B." (9 palavras) — objetiva, no presente, com o texto do ecrã incluído, e cabe nos 3 segundos.

Capítulo 12 Prática

Plano de 30 dias + portfólio

Escrever guiões aprende-se escrevendo para ser produzido — e vendo, ou ouvindo, o que acontece ao texto quando sai do papel.

12.1 O plano

SemanaFocoEntrega
1Briefing e ouvido (caps. 2 e 4). Transcrever 60 segundos de um bom vídeo e um bom podcast, e analisar a estruturaDuas análises de uma página
2Vídeo: um guião de 60 s em duas colunas e a versão vertical de 15 s (caps. 3, 5, 6)Guião + gravação caseira com o telemóvel
3Áudio: um episódio curto semi-escrito com uma entrevista (cap. 7)Guião + episódio de 10 min
4E-learning ou interativo: 5 ecrãs de storyboard instrucional ou um guião ramificado de 10 nós, com legendas e audiodescrição previstas (caps. 8, 10, 11)Storyboard ou tabela de nós + protótipo simples

12.2 Lista de revisão de qualquer guião

☐ A mensagem única cabe numa frase e aparece no início e no fim
☐ Lido em voz alta e cronometrado, cabe na duração com folga
☐ A narração não repete o que a imagem mostra
☐ Funciona sem som (legendas, texto no ecrã) e sem imagem (áudio e audiodescrição)
☐ Todos os números e afirmações têm fonte
☐ Cada pessoa da equipa encontra as suas instruções sem perguntar
☐ Em interativos: todos os caminhos testados e com saída

12.3 Portfólio

  1. Três guiões produzidos, em formatos diferentes (vídeo em duas colunas, áudio, e-learning ou interativo), cada um com a peça final ao lado — o guião sozinho não mostra se funciona.
  2. Um antes/depois ao estilo do cap. 9: o texto original do cliente e o guião final, com as decisões explicadas.
  3. Uma peça acessível com legendas e audiodescrição escritas por si.
  4. Uma peça curta para redes com os resultados (retenção, partilhas), se tiver acesso aos dados.

12.4 Fontes para continuar

🏁 Síntese final da apostila

Quatro ideias sustentam o guião multimédia: (1) uma mensagem, decidida antes de escrever — a maior parte dos problemas de guião são problemas de briefing; (2) escreve-se para o ouvido e para o relógio — frases curtas, ideia primeiro, lido em voz alta e cronometrado; (3) cada meio carrega a sua parte — a narração diz o que a imagem não mostra, e o som faz o que as palavras não fazem; (4) o guião é um documento de produção — completo para quem produz, acessível desde o início, e verificado nos factos. Um bom guião é quase invisível no resultado: nota-se é quando falta.