Capítulo 01 Básico
O que é um guião multimédia
Um guião não é um texto para ler. É um plano de produção que alguém vai transformar em imagem, som e interação — e que o público nunca verá.
Em Portugal diz-se guião; no Brasil, roteiro. É o mesmo documento: a descrição, por escrito, de tudo o que uma peça de mídia vai mostrar, dizer e fazer, na ordem em que acontece. Esta apostila usa "guião" e trata dos formatos que se cruzam no trabalho de quem produz conteúdo hoje — vídeo, áudio, e-learning e interativos.
1.1 Três diferenças em relação a escrever um texto
O público não volta atrás
Quem lê pode reler um parágrafo difícil. Quem ouve ou assiste, na maior parte das vezes, segue em frente — e perdeu. O guião precisa de ser compreendido à primeira.
A palavra divide o trabalho
Num texto, as palavras fazem tudo. Num guião, a imagem, o som, a música e a interação carregam parte do sentido — e a palavra deve fazer só o que eles não fazem (cap. 5).
O leitor é a equipa
O guião é lido por realizador, locutor, editor, animador, programador, tradutor. Cada um procura nele instruções diferentes; o formato existe para que as encontrem (cap. 3).
O tempo é material
Cada palavra custa segundos. Um guião de 90 segundos com texto para três minutos não é um guião longo: é um guião errado (cap. 4).
1.2 Quem faz o quê
Em projetos pequenos, a mesma pessoa escreve, grava e edita. Em projetos maiores, o guião é o contrato entre áreas: o que foi aprovado no guião é o que se filma, se grava e se programa. Mudar depois custa muito mais. Por isso, esta apostila insiste em aprovação por etapas (cap. 2) — é a maior economia de todo o processo.
Os fundamentos de qualquer história — estrutura, personagem, conflito — estão em Storytelling. A narrativa em jogos está em Narrativa para Jogos. A produção de vídeo e áudio com IA, em Criação e Edição de Vídeos com IA e IA de Voz e Áudio. Aqui o foco é o documento que vem antes de tudo isso.
Leia em voz alta este parágrafo, como se fosse a narração de um vídeo: "A implementação, prevista para o terceiro trimestre de 2027, dependerá da aprovação, pelo conselho, do orçamento revisto, cujo montante — superior em 12,5% ao inicial — será submetido em março." O que falha, e como reescrever para o ouvido?
Ver exemplo resolvido
Frase longa, com a informação principal adiada, duas intercalações e números que o ouvinte não retém. Para o ouvido: "O projeto arranca no verão de 2027. Mas antes, o conselho tem de aprovar um orçamento novo — mais caro do que o primeiro. Essa decisão chega em março." Três frases curtas, uma ideia por frase, o número exato vai para o ecrã se for mesmo necessário.
Capítulo 02 Básico
Do briefing à ideia
A maior parte dos guiões fracos não tem um problema de escrita. Tem um problema de briefing que ninguém resolveu antes de começar a escrever.
2.1 As seis perguntas do briefing
| Pergunta | Porque importa |
|---|---|
| Para quê? (objetivo) | Informar, convencer, ensinar, entreter? Uma peça que tenta tudo não consegue nada |
| Para quem? (público) | O que já sabem, o que querem, em que situação vão assistir ou ouvir |
| Qual é a mensagem única? | Se o público só lembrar de uma coisa, qual deve ser? |
| Onde? (canal) | Rede social, site, sala de aula, plataforma de formação, rádio — cada canal tem regras |
| Quanto tempo? | Duração máxima, e o que isso permite dizer (cap. 4) |
| Com que meios? | Orçamento, equipa, locução, imagens disponíveis, prazo |
A mensagem única é a pergunta mais difícil e a mais útil. Se o cliente não consegue respondê-la numa frase, ainda não há guião a escrever — há uma decisão a tomar.
2.2 Aprovar por etapas
Etapa 2 Sinopse ou tratamento — meia página a duas páginas, sem diálogos nem planos
Etapa 3 Estrutura — os blocos, a ordem e a duração de cada um
Etapa 4 Guião completo — no formato do meio (cap. 3)
Etapa 5 Guião técnico / de produção — tempos, planos, marcações para edição, legendas
Cada etapa é aprovada antes de passar à seguinte. Discutir o tom de uma frase na etapa 4, quando a ideia da etapa 1 ainda não estava acordada, é a origem das revisões intermináveis.
A pressão mais comum sobre um guião é acrescentar: mais uma informação, mais um produto, mais um agradecimento. Cada acréscimo tira tempo e atenção da mensagem única. A resposta profissional não é "não" — é mostrar o custo: "para entrar isto, sai aquilo, ou o vídeo passa de 60 para 90 segundos".
Um hospital pede "um vídeo sobre o novo serviço de urgência pediátrica, com o horário, a localização, a equipa, os equipamentos, a história do hospital e como marcar consultas". Formule a mensagem única e diga o que ficaria fora.
Ver exemplo resolvido
Mensagem única: "Se o seu filho precisar de urgência, há agora um serviço só para crianças, aberto 24 horas, aqui." Fica: horário, localização e o ambiente pensado para crianças (mostrado, não dito). Sai: a história do hospital e os equipamentos (outro vídeo ou o site), e as consultas marcadas (que nem são urgência — confundem a mensagem).
Capítulo 03 Intermediário
Os formatos de guião
O formato não é burocracia: é a forma de cada pessoa da equipa encontrar, num relance, exatamente o que tem de fazer.
3.1 Duas colunas (áudio / vídeo)
O formato mais usado em vídeo institucional, publicidade, documentário e televisão. À esquerda, o que se vê; à direita, o que se ouve, linha a linha e sincronizado.
| # | Vídeo | Áudio |
|---|---|---|
| 1 | Plano aberto: sala de espera colorida, criança a brincar. Texto: URGÊNCIA PEDIÁTRICA · 24H | MÚSICA: suave, entra em crescendo. LOCUTORA (off): Às três da manhã, febre alta. E agora? |
| 2 | Grande plano: enfermeira ajoelha-se à altura da criança. | LOCUTORA: Agora há um serviço só para os mais pequenos. |
| 3 | Mapa animado com o percurso até à entrada B. | LOCUTORA: Aberto todos os dias, a qualquer hora. Entrada B. |
3.2 Os outros formatos
| Formato | Para quê | Características |
|---|---|---|
| Guião de cena (cinema/ficção) | Ficção com personagens e diálogos | Cabeçalhos de cena (INT./EXT., local, momento), ação no presente, diálogos centrados; uma página ≈ um minuto |
| Guião de áudio/podcast | Rádio, podcast, audiolivro | Uma coluna; marcações de voz, som e música em maiúsculas; pausas indicadas (cap. 7) |
| Storyboard / animatic | Animação, publicidade, tudo o que depende de enquadramento | Desenhos por plano, com texto e som por baixo; o animatic junta-os com áudio provisório para testar o ritmo |
| Storyboard instrucional | E-learning | Por ecrã: objetivo, conteúdo, narração, interação, feedback, navegação (cap. 8) |
| Guião ramificado | Interativos, quiosques, jogos, simulações | Nós com condições e destinos; tabela ou diagrama, não texto corrido (cap. 10) |
Quem escreve para agências, produtoras e departamentos de formação é avaliado tanto pela clareza do formato quanto pelo texto. Um guião em duas colunas limpo, com tempos e marcações coerentes, diz a quem contrata que você já trabalhou em produção — e que a equipa não vai perder horas a decifrá-lo.
Que formato para: (a) anúncio de 30 segundos animado; (b) episódio de podcast de entrevista; (c) curso online de segurança no trabalho com perguntas; (d) quiosque de museu em que o visitante escolhe o percurso; (e) curta-metragem de ficção.
Ver gabarito
(a) Storyboard, depois animatic. (b) Guião de áudio, com blocos e perguntas (cap. 7). (c) Storyboard instrucional por ecrã. (d) Guião ramificado. (e) Guião de cena.
Capítulo 04 Intermediário · Interativo
Escrever para o ouvido
O texto falado tem gramática própria: frases curtas, a ideia principal primeiro, repetição sem vergonha — e um relógio a correr.
4.1 As regras do ouvido
- Uma ideia por frase. O ouvinte não consegue guardar três orações subordinadas à espera do verbo principal.
- O mais importante primeiro. Sujeito, verbo, informação. Contexto depois, se couber.
- Palavras que se dizem. "Começar", não "proceder ao início de". Se você não diria assim a um amigo, o locutor também não deveria.
- Números com moderação. Arredonde ("quase metade" em vez de "48,7%"), e se o número exato importa, ponha-o também no ecrã.
- Repetir é permitido. Na escrita, a repetição é defeito; no áudio, é orientação. Repita a mensagem única no início e no fim.
- Evite trava-línguas e homófonos que confundem ao ouvido. A única maneira de os encontrar é ler em voz alta.
4.2 Palavras e tempo
Uma narração em português, a um ritmo natural, fica tipicamente entre 120 e 170 palavras por minuto — mais lenta em conteúdo educativo ou institucional, mais rápida em publicidade. Use a calculadora para verificar se o texto cabe na duração:
A contagem de palavras dá a ordem de grandeza. A duração real depende das pausas, da ênfase e da música. Antes de aprovar, leia o guião em voz alta com um cronómetro — ao ritmo que o locutor vai usar, não ao seu ritmo de leitura silenciosa.
Um guião de narração tem 210 palavras para um vídeo de 60 segundos em ritmo natural. Quantas palavras precisa de cortar, e por onde começa?
Ver gabarito
A 145 palavras/min, 60 s comportam cerca de 145 palavras — corte cerca de 65 (um terço), e deixe margem para pausas e música, idealmente ficando em 120–130. Comece pelo que a imagem já mostra (cap. 5), depois por informação secundária que pode ir para o ecrã ou para a descrição do vídeo, e só no fim mexa nas frases da mensagem única.
Capítulo 05 Intermediário
Imagem, palavra e som
O erro mais comum de quem vem da escrita: fazer a narração dizer o que a imagem já está a mostrar.
5.1 Mostrar, e dizer só o que a imagem não diz
Se a imagem mostra uma enfermeira a sorrir para uma criança, a narração não precisa de dizer "a nossa equipa é simpática com as crianças". A narração ganha quando acrescenta o que a imagem não pode dar: o horário, o porquê, o que o público deve fazer. Um bom teste: tape o áudio e veja o que se percebe só pela imagem; depois feche os olhos e veja o que se percebe só pelo áudio. As duas faixas devem somar, não repetir.
5.2 O que a investigação diz sobre texto no ecrã
Richard Mayer, nos estudos que deram origem à teoria da aprendizagem multimédia, descreveu princípios com efeitos consistentes em peças educativas. Três são diretamente aplicáveis a guiões:
| Princípio | O que diz | No guião |
|---|---|---|
| Redundância | Imagem + narração tende a funcionar melhor do que imagem + narração + o mesmo texto escrito no ecrã | Não ponha no ecrã a narração palavra por palavra; use palavras-chave, números, nomes |
| Coerência | Material interessante mas irrelevante (música dominante, anedotas, imagens decorativas) prejudica a compreensão | Cada elemento precisa de uma função; se não tem, sai |
| Sinalização | Indicar o que é importante (destaques, setas, títulos de secção) ajuda | Marque no guião o que deve ser destacado visualmente e quando |
Legendas para acessibilidade são outra coisa — não são "texto redundante", são uma alternativa necessária para quem não ouve (cap. 11). O princípio da redundância trata de texto de ecrã decorativo ou didático, não de legendas que o espectador pode ligar.
5.3 Som, música e silêncio
- O som ambiente situa mais depressa do que qualquer frase: chuva, trânsito, uma sala de aula.
- A música dá o tom e o ritmo da edição — indique no guião onde entra, sobe, desce e para.
- O silêncio é uma ferramenta. Um segundo sem nada, antes da informação principal, faz o público prestar atenção.
Imagem: mapa com um ponto a piscar na entrada B. Narração: "Como pode ver no mapa, a entrada do novo serviço é a entrada B, que fica no lado norte do hospital, assinalada no mapa." Reescreva.
Ver gabarito
"Entrada B, sempre aberta." O mapa já mostra onde é e que está assinalada; a narração acrescenta só o que o mapa não diz — que está sempre aberta — e repete o nome da entrada para quem não está a olhar.
Capítulo 06 Aplicado
Vídeo curto e vídeo para plataformas
Em redes sociais, o guião compete com o dedo que desliza. Os primeiros segundos decidem se o resto existe.
6.1 A estrutura que funciona em vídeo curto
Contexto porque isto importa a quem está a ver
Conteúdo a entrega — uma ideia, bem mostrada
Fecho a mensagem única de novo, e uma ação (seguir, visitar, experimentar)
- O gancho não é o logótipo. Abrir com marca e música institucional é a forma mais rápida de perder o público.
- Muitas pessoas assistem sem som, sobretudo em redes sociais e transportes. O guião deve funcionar com legendas e texto no ecrã — e ser escrito já a pensar nisso.
- Vertical muda a composição: planos mais fechados, texto na zona central (as margens são tapadas pela interface da plataforma), uma pessoa de cada vez.
6.2 Vídeos mais longos
Em vídeos de plataforma com vários minutos, o risco é a queda de atenção a meio. O guião ajuda com mudanças de ritmo a cada 30–60 segundos (novo plano, exemplo, gráfico, pergunta), marcadores de estrutura ("três erros; o primeiro…") e um ponto de viragem a meio que renova a promessa. A gestão do canal, a análise de retenção e o que as métricas dizem sobre o guião estão em YouTube: Gestão e Conteúdo.
Escreva três ganchos diferentes (até 8 palavras cada) para um vídeo curto sobre como poupar água em casa: um em forma de pergunta, um de número surpreendente e um de imagem.
Ver exemplo resolvido
Pergunta: "Quanta água vai pelo cano enquanto escova os dentes?" Número: "Um duche mais curto poupa (confirme o valor da sua região) litros por dia." Imagem (sem palavras): uma torneira aberta a encher um balde, em acelerado, com um contador a subir. Repare que o gancho numérico exige verificar o número antes de publicar — um gancho falso destrói a credibilidade do resto.
Capítulo 07 Aplicado
Podcast e áudio
Sem imagem, a voz, o som e a estrutura fazem todo o trabalho. O guião de áudio é o mais exigente em clareza.
7.1 Três tipos de guião de áudio
| Tipo | O que se escreve | O que fica livre |
|---|---|---|
| Totalmente escrito (narrativo, audiolivro, ficção) | Tudo, palavra a palavra | A interpretação |
| Semi-escrito (conversa, rubricas) | Abertura, transições, fecho, os pontos de cada bloco | A conversa em si |
| Guião de entrevista | Perguntas, ordem, tempo por bloco, perguntas de reserva | As respostas — e o seguimento |
7.2 Um guião de áudio, em formato
EP. 12 — "Urgências à noite" Duração alvo: 18 min
[GENÉRICO — 0:00–0:15]
MÚSICA: tema do programa, sobe e desce para fundo.
APRESENTADORA: Boa noite. Hoje falamos daquela hora em que tudo parece
grave — e às vezes é. Comigo, a enfermeira Sara Lopes.
(pausa)
Sara, o que é que um pai deve fazer primeiro?
[BLOCO 1 — Quando ir à urgência · 0:15–6:00]
PERGUNTAS: 1. Que sinais pedem urgência, e quais podem esperar pela manhã?
2. Qual o erro mais comum que vê chegar às três da manhã?
RESERVA: — Há diferenças por idade?
SOM: (nenhum — conversa limpa)
[TRANSIÇÃO — 6:00]
SOM: separador curto.
- Marcações em maiúsculas para som, música e voz, separadas do texto a ler.
- Pausas e ênfases indicadas, mas sem exagero — o locutor precisa de espaço para interpretar.
- Tempos por bloco, para a gravação e a edição saberem onde estão.
- Perguntas abertas em entrevistas ("como", "porquê", "conte-me") e sempre algumas de reserva.
7.3 Orientar o ouvinte
No áudio, o ouvinte não vê onde está no episódio. O guião resolve isso com sinalização verbal: anunciar o que vem ("vamos ver três situações"), marcar as transições ("segunda situação:"), e recapitular antes do fim. A produção de voz e áudio com IA, e os seus cuidados, estão em IA de Voz e Áudio.
Reescreva como perguntas abertas: (a) "A urgência pediátrica é importante?"; (b) "Os pais costumam chegar nervosos?"; (c) "Gosta do seu trabalho?"
Ver gabarito
(a) "O que muda para uma criança ser atendida numa urgência só para crianças?" (b) "Como é o estado dos pais quando chegam, e o que faz nos primeiros minutos?" (c) "Houve um turno que o fez pensar porque escolheu esta profissão?" Perguntas de sim/não dão respostas de uma palavra; perguntas abertas dão histórias.
Capítulo 08 Aplicado
E-learning e vídeo educativo
Um guião educativo não mede sucesso por ser visto até ao fim. Mede por o público conseguir fazer algo que não conseguia antes.
8.1 Começar pelo objetivo de aprendizagem
Antes do guião, escreva o objetivo com um verbo observável: "no fim, o formando consegue identificar os três sinais de alarme", não "vai conhecer os sinais de alarme". O verbo observável diz o que mostrar, o que praticar e como avaliar. Todo o conteúdo que não serve o objetivo é candidato a sair (o princípio da coerência, cap. 5).
8.2 O storyboard instrucional
| Campo | Ecrã 4 — exemplo |
|---|---|
| Objetivo do ecrã | Reconhecer o sinal 2: dificuldade em respirar |
| Visual | Vídeo curto de criança com respiração acelerada; destaque animado no tórax |
| Narração | "Repare no peito: sobe e desce muito depressa. Isto é um sinal para ir já à urgência." |
| Texto no ecrã | SINAL 2 · RESPIRAÇÃO ACELERADA |
| Interação | O formando carrega no ponto do corpo que mostra o sinal |
| Feedback | Certo: "Exato — o tórax." Errado: "Olhe de novo para o peito da criança." (volta ao vídeo) |
| Navegação | Avança só após acerto ou segunda tentativa |
8.3 Segmentar e praticar
- Segmentos curtos, cada um com uma ideia, com o formando a controlar o avanço (o princípio da segmentação, também de Mayer).
- Praticar logo depois de mostrar — uma pergunta ou tarefa por segmento vale mais do que um teste no fim.
- Feedback que ensina: dizer porquê, não só "errado".
- Métodos e evidência sobre como se aprende estão em Técnicas Modernas de Ensino e Aprendizagem.
Reescreva como objetivos observáveis: (a) "Compreender a política de privacidade"; (b) "Conhecer o novo software de faturação"; (c) "Ficar sensibilizado para a segurança".
Ver gabarito
(a) "Decidir, em três casos reais, se um pedido de dados de cliente pode ser atendido." (b) "Emitir uma fatura com desconto e IVA reduzido sem ajuda." (c) "Identificar, numa foto de um posto de trabalho, quatro riscos de segurança." Cada um diz o que praticar e como verificar.
Capítulo 09 Avançado · Interativo
Um guião reescrito cinco vezes
O mesmo vídeo de 30 segundos para a urgência pediátrica, do texto que o cliente mandou ao guião pronto para produção.
Role o bloco abaixo: o painel escuro mostra cada versão, e a barra indica quanto o texto se aproxima de um guião que se pode produzir.
Tudo o que o cliente quer dizer
"O Hospital, com mais de 50 anos de história ao serviço da comunidade, tem o prazer de anunciar a abertura do seu novo Serviço de Urgência Pediátrica, dotado de equipamentos de última geração e de uma equipa multidisciplinar…" — e continua. Não é mau texto; é um texto para ler, com informação para três vídeos.
O que o pai às três da manhã precisa de saber
Mensagem única: existe urgência só para crianças, aberta 24 horas, na entrada B. A história do hospital, os equipamentos e a marcação de consultas saem — vão para o site e para outras peças.
Frases que se dizem
"Às três da manhã, febre alta. E agora? Agora há uma urgência só para crianças. Aberta todos os dias, a qualquer hora…" — a calculadora do cap. 4 confirma que cabe em 30 segundos com folga para a música.
Mostrar em vez de dizer
A sala colorida e a enfermeira à altura da criança dizem "pensado para crianças" sem palavras. O mapa diz onde é. A narração encolhe para o que a imagem não pode dizer: a hora, o "sempre aberto", a entrada.
O guião técnico
Tempos por plano, texto no ecrã pensado para quem vê sem som, legendas, uma faixa de audiodescrição curta para os planos sem narração ("Uma enfermeira ajoelha-se e sorri para uma menina"), e a versão vertical de 15 segundos para redes. Agora a equipa pode produzir sem perguntar nada.
O guião ficou três vezes mais curto e mais completo ao mesmo tempo: menos palavras na narração, mais instruções para a equipa. O trabalho do guionista não é escrever mais — é decidir o que cada meio carrega e deixar tudo escrito para quem vai produzir.
Pegue um texto institucional real (uma página "sobre nós", um comunicado) e leve-o pelas cinco versões para um vídeo de 45 segundos.
Ver o que esperar
A versão 2 é a mais difícil — obriga a escolher, e a escolha costuma não estar no texto original. Se ao chegar à versão 4 a narração não encolher, é sinal de que as imagens planeadas são decorativas e não carregam sentido: volte a pensar no que se vê.
Capítulo 10 Avançado
Guiões interativos e ramificados
Num interativo, o guião deixa de ser uma linha e passa a ser um mapa. Escrever bem continua a ser necessário — mas já não é suficiente.
10.1 Do texto corrido para a tabela de nós
| Nó | Conteúdo (ecrã / fala) | Condição de entrada | Opções → destino |
|---|---|---|---|
| N1 | "O seu filho tem febre. Que idade tem?" | — | Menos de 3 meses → N2 · 3 meses ou mais → N3 |
| N2 | "Em bebés tão pequenos, a febre é sempre motivo para urgência." | idade < 3 meses | Ver como chegar → N9 |
| N3 | "Tem algum destes sinais?" (lista) | idade ≥ 3 meses | Sim → N9 · Não → N4 |
| N4 | "Pode vigiar em casa. Volte se…" | sem sinais de alarme | Ligar para a linha de saúde → N8 · Fim |
A tabela obriga a responder às perguntas que o texto corrido esconde: de onde se chega a cada nó, para onde se vai, e o que o sistema precisa de lembrar. A mesma lógica — estruturas de ramificação, estado e a explosão combinatória — é tratada em profundidade em Narrativa para Jogos, cap. 3.
10.2 Cuidados próprios dos interativos
- Todos os caminhos têm fim. Nenhum nó sem saída, nenhum ciclo sem forma de sair.
- Cada nó funciona sozinho. Não se pode assumir que o público viu o nó anterior "normal" — pode ter chegado por outro caminho.
- Voltar atrás e recomeçar sempre disponíveis.
- Testar os percursos com pessoas reais, não só verificar a tabela: onde se perdem, onde desistem.
- Conteúdo sensível (saúde, direito, finanças): revisão por especialista de cada caminho, e um aviso claro de que o interativo não substitui aconselhamento profissional.
Na tabela 10.1, que caminho está incompleto ou perigoso?
Ver gabarito
O N1 não prevê "não sei a idade" nem valores ambíguos. E o N4 ("pode vigiar em casa") precisa de condições de retorno explícitas e visíveis (os sinais que obrigam a voltar) — um nó de "fique em casa" num interativo de saúde exige revisão clínica e uma saída sempre visível para ligar para a linha de saúde ou para emergência.
Capítulo 11 Muito avançado
Acessibilidade e IA no guião
Legendas e audiodescrição feitas no fim, às pressas, saem más e caras. Pensadas no guião, saem quase de graça.
11.1 Legendas
As diretrizes de acessibilidade web (WCAG) pedem legendas para conteúdo de áudio pré-gravado em vídeo (critério 1.2.2, nível A). Legendas para pessoas surdas vão além da transcrição da fala: identificam quem fala quando não é óbvio e descrevem sons relevantes ("[telefone a tocar]", "[música tensa]"). Do guião, as legendas herdam o texto — e por isso o guião final, revisto, deve estar sincronizado com o que foi realmente dito na gravação.
11.2 Audiodescrição
A audiodescrição narra, para quem não vê, a informação visual essencial que o áudio não dá. As WCAG pedem audiodescrição para vídeo pré-gravado no nível AA (critério 1.2.5). Regras de escrita:
- Presente e objetivo: "Uma enfermeira ajoelha-se e sorri para uma menina", não "uma enfermeira simpática acolhe a menina assustada".
- Nas pausas: a descrição entra onde não há fala — o que só é possível se o guião deixar pausas. É por isso que a audiodescrição começa no guião.
- O essencial primeiro: texto no ecrã, quem aparece, ações que importam para a compreensão.
Critérios e testes de acessibilidade em detalhe estão em Acessibilidade (WCAG).
11.3 IA no processo de guião
| Uso | Onde ajuda | O cuidado |
|---|---|---|
| Rascunhos e variações | Gerar alternativas de gancho, títulos, versões mais curtas | O rascunho não conhece o briefing nem o público; a escolha continua a ser de quem escreve |
| Contagem, tempos e formatação | Converter texto em duas colunas, estimar durações | Verificar com cronómetro e leitura em voz alta |
| Transcrição e legendas | Transcrever entrevistas, gerar primeira versão de legendas | Revisão humana obrigatória: nomes, termos técnicos, sotaques |
| Voz sintética e dobragem | Protótipos, versões em vários idiomas | Licença da voz; nunca clonar a voz de alguém sem consentimento explícito; informar quando a voz é sintética |
| Factos e números | — | Modelos inventam dados com confiança. Todo o número e toda a afirmação verificável no guião precisam de fonte |
O pipeline de produção de vídeo com IA está em Criação e Edição de Vídeos com IA e em Workflows de Mídia com IA.
Escreva a audiodescrição (máximo 12 palavras) para: plano de 3 segundos, sem fala, de um mapa animado com um percurso até à "Entrada B".
Ver gabarito
"Mapa do hospital: um percurso leva até à Entrada B." (9 palavras) — objetiva, no presente, com o texto do ecrã incluído, e cabe nos 3 segundos.
Capítulo 12 Prática
Plano de 30 dias + portfólio
Escrever guiões aprende-se escrevendo para ser produzido — e vendo, ou ouvindo, o que acontece ao texto quando sai do papel.
12.1 O plano
| Semana | Foco | Entrega |
|---|---|---|
| 1 | Briefing e ouvido (caps. 2 e 4). Transcrever 60 segundos de um bom vídeo e um bom podcast, e analisar a estrutura | Duas análises de uma página |
| 2 | Vídeo: um guião de 60 s em duas colunas e a versão vertical de 15 s (caps. 3, 5, 6) | Guião + gravação caseira com o telemóvel |
| 3 | Áudio: um episódio curto semi-escrito com uma entrevista (cap. 7) | Guião + episódio de 10 min |
| 4 | E-learning ou interativo: 5 ecrãs de storyboard instrucional ou um guião ramificado de 10 nós, com legendas e audiodescrição previstas (caps. 8, 10, 11) | Storyboard ou tabela de nós + protótipo simples |
12.2 Lista de revisão de qualquer guião
☐ Lido em voz alta e cronometrado, cabe na duração com folga
☐ A narração não repete o que a imagem mostra
☐ Funciona sem som (legendas, texto no ecrã) e sem imagem (áudio e audiodescrição)
☐ Todos os números e afirmações têm fonte
☐ Cada pessoa da equipa encontra as suas instruções sem perguntar
☐ Em interativos: todos os caminhos testados e com saída
12.3 Portfólio
- Três guiões produzidos, em formatos diferentes (vídeo em duas colunas, áudio, e-learning ou interativo), cada um com a peça final ao lado — o guião sozinho não mostra se funciona.
- Um antes/depois ao estilo do cap. 9: o texto original do cliente e o guião final, com as decisões explicadas.
- Uma peça acessível com legendas e audiodescrição escritas por si.
- Uma peça curta para redes com os resultados (retenção, partilhas), se tiver acesso aos dados.
12.4 Fontes para continuar
- Livros: Writing for Visual Media (Anthony Friedmann), sobre guiões para todos os meios audiovisuais; Multimedia Learning (Richard E. Mayer), a base dos princípios do cap. 5 e 8; Sound Reporting (Jonathan Kern), sobre escrever e produzir para áudio.
- Acessibilidade: os critérios 1.2 das WCAG (mídia temporal) e guias de audiodescrição publicados por associações de pessoas com deficiência visual.
- Na Uniana: Storytelling, YouTube, Vídeos com IA, IA de Voz e Áudio, Técnicas de Ensino, Narrativa para Jogos.
Quatro ideias sustentam o guião multimédia: (1) uma mensagem, decidida antes de escrever — a maior parte dos problemas de guião são problemas de briefing; (2) escreve-se para o ouvido e para o relógio — frases curtas, ideia primeiro, lido em voz alta e cronometrado; (3) cada meio carrega a sua parte — a narração diz o que a imagem não mostra, e o som faz o que as palavras não fazem; (4) o guião é um documento de produção — completo para quem produz, acessível desde o início, e verificado nos factos. Um bom guião é quase invisível no resultado: nota-se é quando falta.